terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

30 - A China no início do século XX

Pessoal, segue um texto de minha autoria sobre a China nas décadas que antecederam a Primeira Guerra Mundial. Utilizem-no como referência para o esquema da aula sobre o nacionalismo e o contexto internacional de 1895-1914

A China no início do século XX

Antecedentes

Na Idade Média e na Idade Moderna, o Império Chinês era o mais rico e poderoso reino do mundo. Até o início do século XIX, o Estado chinês (um regime despótico dirigido por uma poderosa burocracia, encabeçado pela dinastia Manchu ou Qing, 1644-1912) se manteve relativamente isolado da Europa. A China possuía uma economia agrária pré-capitalista, com uma grande produção artesanal e manufatureira que a tornava em grande medida auto-suficiente. Seu comércio com a Europa tinha muitas restrições, limitado aos portos de Guangzhou (Cantão) e Macau (possessão portuguesa), e era superavitário – o país pouco importava dos europeus e acumulava prata usada pelos mercadores ocidentais para pagar as compras de chá, seda e porcelana chinesas. Os europeus procuraram compensar essas desvantagens com o contrabando de ópio, praticado principalmente pelos britânicos e seus associados chineses ligados à Companhia das Índias Orientais ou EIC (a maior parte do ópio vinha da Índia).

A Guerra do Ópio (1839-1842)

O crescimento do contrabando de ópio na década de 1830 trouxe vários problemas para a China, como o aumento do número de viciados e da corrupção em Cantão (funcionários envolvidos no contrabando), e a perda de prata, usada para comprar ópio. O imperador Daoguang (1820-1850) reagiu intensificando a repressão ao contrabando, o que prejudicou os interesses da EIC e causou um conflito armado com a Grã-Bretanha. Na conseqüente Guerra do Ópio a China foi derrotada e obrigada a assinar o Tratado de Nanjing ou Nanquim (1842): Hong Kong foi cedida aos britânicos (devolvida à China em 1999) e outros portos foram abertos ao comércio internacional.

A dominação estrangeira na segunda metade do século XIX

A Guerra do Ópio iniciou não apenas a abertura comercial chinesa, mas também a fase do imperialismo ocidental (e depois japonês) na China, caracterizado pelos tratados desiguais (desvantajosos para os chineses) e pela divisão do país em áreas de influência (dominação) estrangeira. A penetração ocidental enfraqueceu o Estado chinês e, junto com o agravamento dos problemas sociais e econômicos do país, desencadeou a Rebelião Taiping (1850-1864), uma gigantesca revolta camponesa contra a monarquia Qing. Com dificuldade e ajuda do Ocidente (que temia o colapso da autoridade e o caos político na China), os Qing reprimiram o movimento, mas ficaram mais debilitados. Em uma Segunda Guerra do Ópio ou Guerra do Arrow (1856-1860), agora contra a Grã-Bretanha e França, a China foi novamente derrotada e obrigada a fazer mais concessões. Uma tentativa de modernizar o país com reformas limitadas que deveriam fortalecer o Estado fracassou (o Movimento do Auto-Fortalecimento 1865-1890). Na mesma época, o Japão adotou com sucesso um projeto mais radical com objetivos semelhantes e, fortalecido, lançou-se contra a China. Na Guerra Sino-Japonesa (1894-1895), os chineses foram derrotados pelos japoneses, que tomaram Taiwan e começaram a exercer uma crescente influência sobre a Coréia e a Manchúria. A expansão japonesa desencadeou a Partilha das Concessões (1896-1899) – a divisão da China em zonas de influência entre as potências européias. A monarquia Qing, na prática, tinha perdido a soberania sobre a China, que virou uma semicolônia européia e japonesa.

A Revolta dos Boxers (1899-1900)

A humilhante dominação estrangeira resultou no crescimento da xenofobia e do nacionalismo entre os chineses. Organizações secretas foram criadas com a intenção de expulsar os ocidentais e os japoneses do país. Entre elas a dos Boxers (“Lutadores dos Punhos Sagrados”), que lideraram em 1899-1900 uma grande revolta popular contra os estrangeiros. A Revolta dos Boxers foi inicialmente também voltada contra os Qing, mas a imperatriz-regente Cixi (1861-1908), buscando sustentação popular, apoiou os revoltosos e entrou em guerra contra as potências imperialistas. Contudo, a maioria dos governadores provinciais não aderiu ao movimento, que acabou sendo sufocado pelas forças ocidentais e japonesas. A derrota chinesa ampliou o controle estrangeiro no país. O apoio interno aos Qing desapareceu completamente. Mas as rivalidades e divergências entre as potências impediram que elas dividissem totalmente a China entre si e acabassem com o Estado chinês. De fato, na mesma época, os EUA (presidente William McKinley, 1897-1901, e seu Secretário de Estado John Hay) propuseram a Política de Portas Abertas para as relações entre a China e o mundo – o livre-comércio e a igualdade de condições nas concessões chinesas. As demais potências, entretanto, não apoiaram a proposta.

A crise da monarquia chinesa

No início do século XX, a monarquia dos Qing ficou mais isolada e perdeu sua legitimidade. A derrota para as potências imperialistas durante a Revolta dos Boxers, o avanço da dominação estrangeira, problemas financeiros, a corrupção da Corte e do sistema imperial como um todo e a expansão das doutrinas políticas ocidentais (nacionalismo, liberalismo, democracia, socialismo). A oposição dos intelectuais dissidentes cresceu, sobretudo nas elites urbanas. Em 1905, um desses opositores, Sun Yixian (Sun Yat-sen), fundou a Tongmenghui ou Aliança Revolucionária Chinesa que defendia uma república baseada nos “Três Princípios do Povo”: nacionalismo, democracia e bem-estar social. Essa organização originou, em 1912, o Partido Nacionalista ou Guomindang (Kuomintang – KMT), o principal partido político da China até a década de 1940.

A Revolução Chinesa de 1911

A dinastia Qing tentou novamente fazer algumas reformas, mas elas foram insuficientes e por demais tardias. A crise do regime monárquico atingiu o ápice em 1911. Em outubro, em meio a motins do exército, eclodiu a revolução republicana sob a liderança da Aliança Revolucionária Chinesa. O último imperador, Puyi, abdicou em fevereiro de 1912. No entanto, Sun Yixian não conseguiu apoio suficiente dos militares para chefiar o governo, que foi assumido pelo general Yuan Shikai (presidente 1912-1915). Um parlamento foi criado (o KMT era o partido mais importante) em uma estrutura política inspirada no liberalismo. Mas a jovem república nasceu mergulhada em problemas de solução difícil, ao menos a curto e médio prazo, como a crise financeira, a dominação estrangeira e a ascensão de governadores independentes em várias províncias. O próprio Shikai, de comportamento autoritário, entrou em conflito com o Parlamento e o KMT. Em 1915, durante a Primeira Guerra Mundial, ele restaurou a monarquia e tentou governar como imperador até ser assassinado (1916). A China ficou, então, fragmentada politicamente nas mãos de chefes militares conhecidos como os “Senhores da Guerra”. Somente a partir do final da década de 1920, uma ordem centralizada começou a emergir no país sob a direção do sucessor de Sun Yixian (que morreu em 1925), Jiang Jieshi (Chiang Kai-shek).

Sugestões de leituras. Em português, existem dois bons livros que tratam desse período da história chinesa: China – Uma Nova História, de John K. Fairbanks (L&PM, 2006), e o Em Busca da China Moderna – Quatro Séculos de História, de Jonathan Spence (Companhia das Letras, 1996). 

Um comentário:

Carmen Sousa disse...

gostei é um site muito bom para pesquisa