quarta-feira, 6 de março de 2013

58 - Hugo Chávez


 
Pessoal, segue um texto do jornalista Reinaldo Azevedo sobre a morte de Hugo Chávez e sua trajetória política, publicado na versão eletrônica da Veja (5 de março de 2013)

Hugo Chávez (1954-2013)

Em mais de uma ocasião, Hugo Rafael Chávez Frías disse que pretendia permanecer no poder na Venezuela até 2031. Na tarde desta terça-feira, contudo, as complicações advindas de um câncer na região pélvica abreviaram seus planos: a morte de Chávez foi anunciada pelo seu vice, Nicolás Maduro, e pôs fim a um governo que já durava 14 anos. (…) A morte deixa um vácuo difícil de ser preenchido, já que nenhum sucessor tem a mesma ascendência sobre os membros do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) e as Forças Armadas, nem o mesmo carisma para conduzir as massas.

Chávez morre aos 58 anos. No início de dezembro, ele viajou a Havana, Cuba, para submeter-se à quarta cirurgia para combater o tumor diagnosticado em junho de 2011 e que nunca foi tratado de maneira inteiramente transparente pelo governo venezuelano – nem mesmo a localização exata do tumor foi revelada. Em 18 de fevereiro deste ano, após 71 dias de ausência, ele anunciou seu retorno à Venezuela pelo Twitter. No entanto, nenhuma imagem do coronel havia sido divulgada desde então. Ele estaria recebendo tratamento no hospital militar da capital, e nesta terça-feira o governo informou que seu estado de saúde havia sofrido uma piora após “nova e severa infecção”.

A doença abateu um político que vendia uma imagem de invencibilidade e que tentou mantê-la até quando o agravamento de seu estado de saúde já mostrava que a realidade era outra. O carismático Chávez deverá ser lembrando pelo estilo espalhafatoso – que causou a célebre reação do Rei Juan Carlos, da Espanha, num encontro de governantes: “Por que não te calas?” – e pela maneira como usou uma das ferramentas da democracia, as eleições periódicas, para desmontar instituições e concentrar poderes. Ao longo de mais de seus anos no poder, ele criou uma milícia própria, manobrou para garantir resultados favoráveis em eleições, confiscou empresas, perseguiu opositores e a imprensa e submeteu a Justiça aos seus interesses.

Origens
Nascido em 28 de julho de 1954, o segundo filho de dois professores da cidade venezuelana de Sabaneta, no oeste da Venezuela, chegou a pensar em se dedicar profissionalmente ao esporte mais popular do país, o beisebol. A mudança de rumo veio depois que entrou para o Exército, aos 17 anos, com o objetivo inicial de se mudar para a capital, Caracas, onde seu talento esportivo poderia ser mais facilmente reconhecido.

Acabou mergulhando no campo militar e foi um dos fundadores do grupo que ficou conhecido como Movimento Bolivariano Revolucionário – em homenagem ao líder da independência da Venezuela, Simon Bolívar. Começou então a organizar seus aliados para tomar o poder. A tentativa de golpe fracassada contra o governo de Carlos Andrés Pérez, em 1992, resultou na morte de 18 pessoas e na sua prisão. Depois de dois anos preso, ele foi perdoado pelo presidente Rafael Caldera e libertado em 1994.

Quatro anos depois, o coronel paraquedista assumiu o comando da Venezuela ao ser eleito com 56% dos votos. Diante de um cenário político marcado pela corrupção, Chávez apresentou-se como um representante das classes mais baixas que promoveria uma melhor distribuição da riqueza vinda do petróleo. De fato, a maior fonte de recursos do país financia os programas assistencialistas conhecidos como “misiones”, que consistem basicamente em uma fórmula para distribuir pequenas quantias de dinheiro aos beneficiários. Há misiones de alfabetização de adultos, de cooperativas agrícolas, de atendimento médico e de venda de alimentos subsidiados, entre outras. Todas estabeleceram uma dependência entre a população pobre e a figura onipresente de Chávez.

O medo de perder os benefícios sociais ou um cargo público manteve a população fiel ao coronel, em um estilo de governo batizado por opositores de “medocracia”. A suspeita de que o sigilo do voto poderia ser violado buscava alicerces em momentos como o verificado em 2004, quando aliados do presidente elaboraram uma lista com o nome de todos os venezuelanos que foram a favor da convocação de um referendo contra Chávez. Além disso, ao longo de seus três mandatos consecutivos, outras irregularidades foram relatadas, como mesários votando no lugar dos eleitores ausentes ou permitindo que militantes chavistas acompanhassem eleitores na cabine de votação. Até sua saída de cena, as artimanhas foram alteradas, mas nunca eliminadas.

Trajetória
Logo depois de assumir o poder, Chávez convoca um referendo em abril de 1999 e consegue autorização popular para eleger os representantes da Assembleia Constituinte que elaboraria a nova Constituição, da agora República Bolivariana da Venezuela. A Constituição acabou com o sistema legislativo bicameral – desde então, o Parlamento é dominado por aliados do presidente. Novas eleições são convocadas para julho de 2000, é Chávez é eleito com quase 60% dos votos. Pouco depois é aprovada a chamada Lei Habilitante, permitindo ao coronel governar por meio de decretos.

A era Chávez foi um período de intensa polarização no país. Os opositores, vendo na figura do presidente uma ameaça comunista, começaram a alertar a classe média sobre os planos de Chávez de nacionalizar toda a iniciativa privada. Já o mandatário rotulava a oposição como “burguesa” e “oligárquica”, influenciada pelo “imperialismo americano”.

As diferenças ficaram evidentes em 2002, quando Chávez demitiu os gestores da PDVSA e substituí-los por pessoas da sua confiança. A decisão associada à insatisfação com as medidas como a desapropriação de latifúndios, o que acabou provocando uma tentativa de golpe de estado pela oposição. Em protesto, a Fedecámaras, entidade representante dos empresários, convoca uma greve geral para o abril, que termina com 13 mortos. O descontentamento com a liderança de Chávez atingiu também alguns setores do Exército, e antigos apoiadores do coronel o abandonaram. No dia 12 de abril, um grupo de oficiais anuncia que Chávez tinha renunciado e que o presidente da Fedecámaras, Pedro Carmona, havia assumido o comando do país. Mas o plano deu certo apenas por 47 horas. Partidários de Chávez, apoiados por comandantes militares, pedem a volta do mandatário e Carmona abandona o posto. Depois de se restabelecer, Chávez passou a reprimir os meios de comunicação independentes, com a acusação de que eles estariam distorcendo as informações em favor da oposição.

Mas a insatisfação resulta em novos protestos e greve geral, que afeta a produção de petróleo na Venezuela. Afetados pelo problema interno, os Estados Unidos pressionam a oposição por um acordo com o governo. Em 2003, uma coligação de partidos opositores convoca um referendo sobre a permanência ou não de Chávez no poder. A consulta popular foi realizada no ano seguinte, com a maioria dos eleitores apoiando o mandatário – sob acusações de fraude por parte da oposição que, no ano seguinte, boicotou as eleições parlamentares.

Em dezembro de 2006, Chávez é reeleito para um terceiro mandato, com quase 63% dos votos. No ano seguinte, ele decide não renovar os direitos de transmissão da emissora de TV mais popular do país, a RCTV. Governando sem oposição no Parlamento, o caudilho ganha poderes para governar novamente por meio de decretos. Ainda em 2007, no entanto, sofre um revés quando os venezuelanos votam contra a proposta de reforma constitucional que previa, entre outras coisas, o direito de reeleição ilimitada para a Presidência. A derrota foi logo revertida pelo ditador, que convocou, no ano seguinte, uma nova consulta popular para aprovar o item que lhe permitiu perpetuar-se no poder. A aprovação, mais uma vez, foi feita com amplo uso da máquina pública.

Em 2010, a oposição recebeu a maioria dos votos na eleição parlamentar, mas Chávez conseguiu garantir mais representantes do PSUV na Assembleia Nacional ao alterar os mapas dos distritos eleitorais, dando mais peso aos votos das zonas rurais, onde tem mais apoio.

Nas últimas eleições presidenciais, em 7 de outubro, Chávez voltou a usar a máquina para impor toda sorte de obstáculos à campanha do opositor Henrique Capriles, governador do estado de Miranda. Logo depois da unificação opositora em torno do nome de Capriles, ele foi punido com um corte no orçamento do seu estado. O governo nacional também tirou de sua administração todos os hospitais e postos de saúde. Ao longo da campanha, Chávez lançou mão do expediente antidemocrático de usar a cadeia nacional para interromper transmissões de atos políticos de Capriles pelas emissoras. E chegou até mesmo a acusar a oposição de fazer bruxaria contra sua campanha eleitoral. Depois do resultado que assegurou um quarto mandato ao coronel, a oposição afastou a hipótese de fraude, mas destacou que a campanha foi feita em condições desiguais.

Bufão
Internamente, Chávez usou as emissoras de TV com desenvoltura para cantar, fazer longos discursos e palhaçadas. Essa personalidade excêntrica também foi apresentada a líderes mundiais em diversas ocasiões. Uma das mais marcantes foi seu discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas, em 2006, quando chamou o ex-presidente americano George W. Bush de “demônio” e recomendou a leitura de um livro de Noam Chomsky, conhecido crítico do governo dos EUA, sobre os perigos do imperialismo americano.

No ano seguinte, no entanto, ele encontrou um interlocutor com pouca paciência. O rei da Espanha, Juan Carlos, disse a Chávez a célebre frase “¿Por qué no te callas?”, durante uma Cúpula Ibero-Americana, em Santiago, Chile. A reação do rei ocorreu depois que Chávez chamou o ex-premiê espanhol José Maria Aznar, um aliado de Bush eleito democraticamente, de “fascista”.

As ações de Chávez no exterior, contudo, foram muito além de bravatas. Além de financiar o assistencialismo que deu origem a uma fiel base eleitoral na Venezuela, o dinheiro do petróleo foi usado pelo ditador para comprar aliados na América Latina, como Cuba e Bolívia. O petróleo também estreitou as relações entre a Venezuela e a China. O governo chinês financia projetos na Venezuela e recebe petróleo em troca. Com isso, Chávez pretendia reduzir a dependência dos Estados Unidos, realidade da economia de seu país, a despeito do declarado antiamericanismo do caudilho – que chegou a ser incluído no currículo das escolas.

Em nome dos aliados, Chávez não se constrangeu ao enviar um navio com petróleo para a Síria em fevereiro de 2012, quando a comunidade internacional tentava isolar o governo de Bashar Assad, e não deixou de apoiar Mahmoud Ahmadinejad mesmo com os esforços do Ocidente para tentar dissuadir o Irã dos planos de desenvolver armas nucleares.

A tentativa de ampliar sua influência na América Latina – por meios tortos ou equivocados – nunca foi abandonada. Suas ações foram desde o financiamento de insurreições nos países vizinhos à criação da Alba (Alternativa Bolivariana para as Américas), anunciada em 2005 como uma resposta à Alca, a área de livre-comércio das Américas proposta pelos Estados Unidos, e que se tornou um clube de amigos do Chávez. Em outra frente, o coronel foi grande apoiador das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. Documentos encontrados em poder da narcoguerrilha colombiana revelaram que a ajuda vinha na forma de dinheiro, guarida, armas, assistência médica.

Uma das últimas intervenções do ditador teve como alvo o Paraguai. Chávez mandou o então chanceler Nicolás Maduro reunir-se com a cúpula das Forças Armadas paraguaias para incitar uma reação a favor de Fernando Lugo, que foi alvo de impeachment em junho do ano passado. As relações entre os dois países estão estremecidas desde então.

Doença
Desde junho de 2011, quando revelou sofrer da doença, o presidente viajou diversas vezes a Cuba para dar continuidade ao tratamento, sem detalhar sua situação. As informações sobre o câncer foram desencontradas desde o início – nem o tipo nem a localização dos tumores foram revelados com exatidão. Até mesmo os comentários de Chávez sobre o câncer oscilavam. Em um momento, ele parecia otimista e se dizia “curado”. Em outro, alertava para uma queda de ritmo. Depois, prometia voltar “com mais energia”.

Em novembro de 2012, seis meses depois da última sessão de quimioterapia e após ficar semanas sem aparecer em público, ele voltou a Cuba para um tratamento especial. Oficialmente, anunciou que as sessões de oxigenação hiperbárica “consolidariam o processo de fortalecimento” de sua saúde. Depois de ficar mais de uma semana na ilha, voltou à Venezuela. Porém, apenas dois dias depois, informou que viajaria novamente a Cuba para se submeter à quarta cirurgia em 18 meses. Admitiu que a nova intervenção cirúrgica apresentava um risco e, pela primeira vez falou em um sucessor: o vice-presidente, Nicolás Maduro. Depois de mais de dois meses internado em Cuba, o governo divulgou fotos do mandatário com as filhas. Ele aparecia sorridente.

Ao longo do tratamento, Chávez apelou para a fé. Durante a Semana Santa de 2012, o ditador venezuelano demonstrou um fervor religioso fora do comum. Logo ele — que costumava condenar a Igreja e toda a sua hierarquia, insultando cardeais, bispos e até mesmo o Vaticano como instituição em seus discursos —, nesse feriado religioso, participou de uma missa em Barinas, sua cidade natal, onde se mostrou um católico devoto.

Chávez casou-se duas vezes: a primeira com Nancy Colmenares, com quem teve três filhos —- Rosa Virginia, María Gabriela e Hugo Rafael —, e a segunda com a jornalista Marisabel Rodríguez, de quem se separou em 2003 e com quem teve uma filha, Rosinés. Além disso, também teria mantido uma relação amorosa por cerca de dez anos com a historiadora Herma Marksman, enquanto era casado com sua primeira esposa.

Por Reinaldo Azevedo in http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/

sexta-feira, 8 de junho de 2012

57 - Livro “Nem Heróis, Nem Vilões”


“Nem Heróis, Nem Vilões”, do jornalista Moacir Assunção, é um estudo sobre a Guerra do Paraguai (1864-1870), publicado recentemente pela Record (2012). Excluindo os agradecimentos, as apresentações, a bibliografia e o índice, são 413 páginas de texto, dividido em 16 capítulos, mais a conclusão, uma cronologia e três entrevistas. Comecei a ler a obra com uma expectativa positiva. Na orelha do livro, o historiador Francisco Doratioto – talvez a maior autoridade sobre o conflito platino – afirma que “Nem Heróis, Nem Vilões” possui uma “redação clara, direta e de leitura agradável” e que “O leitor certamente terá, com este livro, uma leitura prazerosa”. Na Apresentação, o jornalista Fernando Jorge escreve ser o “livro enleante, capaz de magnetizar o leitor da primeira até a última página”, “fruto de longa e cuidadosa pesquisa” e que “é, acima de tudo um livro inovador” “por ser diferente, original”. Infelizmente, “Nem Heróis, Nem Vilões” não atendeu as expectativas. O texto é confuso e muito repetitivo, indicando uma elaboração rápida e uma revisão descuidada. “Nem Heróis, Nem Vilões” não é uma narrativa cronológica da guerra, mas um conjunto de temas sobre ela. O leitor que não conhece minimamente o conflito terá dificuldades e certamente ficará perdido em muitos capítulos. O livro possuiu, no final, uma boa cronologia que pode ajudar a atenuar esse problema, mas o autor poderia ter incluído, no início da obra, um resumo narrativo da guerra em quatro ou cinco páginas, mais abrangente do que os apresentados nos manuais escolares. Alguns erros históricos foram cometidos, como na afirmação, na pág. 80, de que a Guerra da Cisplatina (1825-1828) foi “movida por D. João VI contra o Uruguai”, quando, de fato, ela ocorreu sob D. Pedro I e foi um importante fator que desgastou o seu governo, como, aliás, a Guerra do Paraguai também desgastou o regime do seu filho D. Pedro II. São falhas que podem ser resolvidas em uma nova edição. De toda forma, o livro vale pelas curiosidades que resgata do conflito, ainda que exija cautela com algumas informações. Não espere uma nova narrativa da guerra mais importante que envolveu o Brasil desde a independência. Para isso, leia “Maldita Guerra” de Francisco Doratioto (Companhia das Letras, 2002). E não espere também um Laurentino Gomes.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

56 - Esquema de aula: A Ordem Internacional 1895-1914

Pessoal, segue o esquema da aula sobre a Ordem Internacional em 1895-1914


A ORDEM INTERNACIONAL EM 1895-1914: ASPECTOS GERAIS

1. Multipolaridade

Várias grandes potências dividindo o poder de forma assimétrica

■ Europa (supremacia mundial): Grã-Bretanha, Alemanha, França, Rússia, Áustria-Hungria e Itália

■ EUA

■ Japão

Instável equilíbrio do poder: declínio e ascensão das potências

2. Hegemonia britânica no capitalismo global

Financeira, comercial e naval

Industrial (até 1900, quando foi superada pelos EUA e Alemanha)

Imperialista: possuía o maior império colonial da história

Principais colônias:

Índia: “Jóia da Coroa”

Domínios (países de povoamento britânico com autogoverno): Canadá (1867), Austrália (1900) Nova Zelândia (1907) e África do Sul (1910)

1837-1901. Reinado de Vitória (dinastia Hanover)

Era Vitoriana

Apogeu do poder global britânico

Neutralidade na Europa: “Isolamento Esplêndido”

■ Não firmar alianças militares

■ Manter a balança do poder

1901-1910. Reinado de Eduardo VII

Declínio do poder global britânico

Crescente atrito com a Alemanha

Abandono do Isolamento Esplêndido

Tríplice Entente (1907): GB, França e Rússia

1910-1936. Reinado de George V

Primeira Guerra Mundial (1914-1918)

Perda da hegemonia econômica global para os EUA

3. Maior parte da África e da Ásia sob domínio imperialista

4. Papel periférico da América Latina

5. Anarquia internacional

Ausência de um organismo internacional visando a segurança coletiva e a paz mundial

Mas o ideal de uma legislação internacional avançava:

1863. Criação da Cruz Vermelha

Sede em Genebra

Instituição privada criada por Henry Dunant

Ajuda humanitária nas guerras

1864 e 1906. Convenções de Genebra

Acordos internacionais de respeitar e tratar militares feridos

1899 e 1907. Convenções de Haia

Conferências internacionais de paz

Criação da Corte Internacional de Arbitragem (1899): resolução pacífica de conflitos

Princípio da igualdade entre nações (1907): ações do Brasil (Rui Barbosa, a “Águia de Haia”)

Havia também a tradição do Concerto da Europa: cooperação entre as grandes potências européias para solucionar crises internacionais ou dividir territórios.

O fracasso dessa cooperação em 1914 causou a Primeira Guerra Mundial.

TENDÊNCIAS DE ALTERAÇÕES NA ORDEM INTERNACIONAL

1. A ascensão de novas potências

1.1 Alemanha

a) Antecedentes: a unificação alemã (1864-1871)

Por meio de guerras sob a liderança do Reino da Prússia

■ Monarquia conservadora

■ Rei Guilherme I da dinastia Hohenzollern

■ Chanceler (primeiro-ministro) Otto von Bismarck

■ Camada dirigente: os junkers (nobreza militarista)

1870-1871. Guerra Franco-Prussiana

■ Vitória da Prússia

■ Crise na França

– Queda de Napoleão III (Segundo Império)

– Criação da Terceira República (1870-1940): democracia

– Comuna de Paris (março-maio 1871): tentativa de governo revolucionário dos trabalhadores liderado pelas esquerdas. Destruída pela Terceira República

1871, 18 de janeiro. Criação do Império Alemão

O Segundo Reich (1871-1918): uma confederação de Estados alemães com autonomia local

■ Hegemonia da Prússia: poder central (imperador ou kaiser), controle do Exército e da diplomacia

Monarquia constitucional autoritária

■ Imperador e chanceler independentes do Parlamento (Reichstag)

■ Elite dirigente: junkers (domínio do Exército) e grande burguesia (domínio do capital)

■ Sufrágio universal masculino

Forte militarismo da elite junker: o Exército era um “Estado dentro do Estado”

1871, 10 maio. Tratado de Frankfurt

Entre Alemanha e França

Encerrou a Guerra Franco-Prussiana

Alemanha anexou a Alsácia-Lorena

França pagaria indenização

Gerou revanchismo francês

b) O reinado de Guilherme I (1871-1888)

Governo de Bismarck, o “Chanceler de Ferro”: apogeu da Era Bismarckiana

A Alemanha virou a maior potência industrial e militar da Europa

Problemas do regime:

■ O impacto da modernização

– Forças tradicionais (monarquia, junkers) ameaçadas pelas forças da mudança (industrialização capitalista)

– Ascensão do movimento trabalhista, democrático e socialista (1875 fundação do SPD, o Partido Social-Democrata, socialista de linha marxista)

■ Revanchismo francês

■ Desconfianças das outras potências diante do poder alemão

– A Questão Alemã (futuro da Alemanha) virou uma Questão Européia (futuro da Europa com uma Alemanha poderosa)

– O que a Alemanha faria com o seu poder?

– Se conformaria em ser parte de uma ordem européia multipolar?

– Tentaria dominar a Europa?

■ A questão estratégica central dos militares alemães:

– Em caso de guerra, evitar uma luta simultânea em duas frentes: contra a França (oeste ou frente ocidental) e a Rússia (leste ou frente oriental)

– Portanto, a diplomacia alemã precisaria evitar a aliança França-Rússia

A Realpolitik bismarckiana:

■ Realismo político baseado no pragmatismo (considerações práticas) e não na ideologia

■ Objetivos:

– Preservar a monarquia e a unidade alemã

– Política interna: conter os socialistas e democratas

– Política externa: conter e isolar a França

■ Medidas

– Leis Anti-Socialistas: SPD proibido em várias ocasiões entre 1878 e 1888

– Leis trabalhistas: pioneirismo do Welfare State

– Aproximação com a Áustria-Hungria e Rússia

– Imperialismo moderado/marinha pequena para não assustar a GB

– Aplicar o Concerto da Europa tendo a Alemanha como árbitra da diplomacia européia

1873. Liga dos Três Imperadores

A Dreikaiserbund entre os monarcas da Alemanha, Áustria-Hungria e Rússia

Ideal conservador de conter a expansão do radicalismo (republicanismo, democracia, socialismo): tradição da Santa Aliança

Isolamento da França (vista como símbolo do republicanismo democrático)

1882. Tríplice Aliança

Alemanha, Áustria-Hungria e Itália

Voltada contra a França

1884-1885. Conferência de Berlim

Partilha colonial de territórios africanos entre as potências européias

Problema na década de 1880: a crescente rivalidade entre Áustria-Hungria e Rússia nos Bálcãs dissolveu a Liga dos Três Imperadores

1887. Tratado de Resseguro

Entre Alemanha e Rússia

Neutralidade se uma das duas entrasse em guerra com outra potência

Exceção: se a Alemanha atacasse a França ou a Rússia atacasse a Áustria-Hungria

Desafios para a política externa bismarckiana no final da década de 1880:

Evitar a guerra entre a Rússia e a Áustria-Hungria pelos Bálcãs

Manter a neutralidade alemã caso essa guerra estourasse

Bismarck: “Os Bálcãs não valem os ossos de um único granadeiro da Pomerânia.”

c) O reinado de Guilherme II (1888-1918)

Era Guilhermina: reinado mais pessoal

Maior interferência do kaiser nos assuntos do governo

Maior apoio dos junkers e dos industriais com medidas de:

■ Proteção da agricultura nacional (interesses junkers) contra a concorrência do trigo barato importado da Rússia

■ Aumento das compras militares (dinamizando a produção bélica, sobretudo naval) e de busca por mais mercados externos para a indústria nacional

Forte influência do darwinismo social e do nacionalismo germânico

■ Política internacional vista como a luta entre as grandes potências: a mais forte subordina as demais

■ A Alemanha está destinada a liderar a Europa e precisa de “um lugar ao Sol”: um grande império colonial e uma grande marinha de guerra

Almirante Tirpitz: “Sem o poder naval, a influência da Alemanha no mundo será como a de um molusco sem concha.” Isso significa “deixar o mundo para os anglo-saxões (GB e EUA) e para os filhos de Jeová (judeus).”

■ Consolidar a aliança com a Áustria-Hungria: ideal do pangermanismo (cooperação/união dos povos germânicos)

Vantagens da expansão/hegemonia alemã na visão de Guilherme II:

■ Despertaria o patriotismo alemão e uniria o povo no apoio ao regime

■ A construção de uma grande marinha beneficiaria a indústria e gera empregos

■ Ganhos econômicos com as colônias

■ A Grã-Bretanha não conseguiria competir com a Alemanha e buscaria um acordo com ela favorecendo os interesses alemães

■ O apoio da GB e da AH à Alemanha compensaria qualquer aliança eventual entre a França e a Rússia

Problema:

■ Inconsistência e imprevisibilidade do novo kaiser: “Guilherme II é como um navio de guerra a todo vapor e desgovernado que algum dia vai bater em algo e causar uma grande catástrofe” (Edward Grey, Secretário do Exterior da GB)

1890. Demissão de Bismarck

Entre 1890 e 1909 a Alemanha teve 4 chanceleres

Em 1914, o chanceler era Bethmann-Hollweg (1909-1917)

1890. Guilherme II não aceita renovar o Tratado de Resseguro com a Rússia

A Rússia buscou, então, aproximar-se da França

1897. Adoção da Weltpolitik

A política mundial da Alemanha

O “novo rumo” da política externa alemã

■ Construir uma grande marinha

■ Intensificar a expansão colonial

Forte apoio de organizações nacionalistas de massas da direita:

■ Liga Naval, Liga dos Fazendeiros e Liga Pangermânica: ultranacionalistas, antissemitas e antissocialistas

Problemas da Weltpolitik

■ A GB ficou assustada, mas não se curvou à Alemanha

– Corrida armamentista naval anglo-alemã

– GB buscou aproximação com a França e a Rússia

■ Alemanha ficou mais isolada e com sensação de cerco: cercada pela GB, França e Rússia

■ Os gastos com a marinha reduziram os investimentos no exército e nos direitos sociais

■ O SPD continuou crescendo como o principal partido de massas opositor do regime

1.2  EUA

a) Antecedentes

1861-1865. Guerra da Secessão

A União (estados nortistas) derrota os estados sulistas separatistas (Confederação)

Reunificação dos EUA

Abolição da escravidão

1870-1914. Expansão do capitalismo industrial e financeiro

Criação das condições para a expansão do poder continental (hemisférico) e mundial dos EUA

■ Hegemonia no Hemisfério Ocidental (Américas)

■ Hegemonia no Pacífico

b) Os fundamentos ideológicos da política externa americana

A herança do calvinismo (puritanismo):

EUA: a “Terra Prometida” (a “Nova Jerusalém”)

Os americanos: o “povo eleito”

Idéia de possuir um regime político e econômico superior ao do Velho Mundo

■ Modelo para a humanidade: república, democracia, liberdade individual, capitalismo, prosperidade econômica

Doutrina Monroe (1823): “A América para os americanos”

Expansão colonial européia na América vista como uma ameaça à segurança dos EUA

EUA apoiariam a independência das nações latino-americanas

Oposição dos EUA à alianças políticas entre a América Latina e as potências européias

Destino Manifesto (1845)

EUA destinados à expansão territorial no continente americano e, depois de 1870, no Pacífico

Dois impulsos contraditórios da política externa:

Isolacionismo e neutralidade: baseados na idéia da excepcionalidade dos EUA

■ Suas idéias e instituições políticas eram únicas e não poderiam florescer em outras partes do mundo

Internacionalismo e ativismo: baseados na idéia da missão sagrada e civilizadora dos EUA

■ Propagar seu sistema político e econômico pelo mundo (o “evangelho da democracia”)

c) A busca da hegemonia na América Latina e a expansão no Pacífico (1870-1914)

Estratégias americanas na América Latina:

Desafiar e afastar o poder europeu do Caribe

Ideologia da solidariedade hemisférica ou pan-americanismo (cooperação, aliança e integração dos países americanos)

Intervenções militares e protetorados no Caribe, América Central e México

1889-1890. Primeira Conferência Internacional dos Estados Americanos (em Washington)

Organizada pelo Secretário de Estado James Blaine do presidente republicano Benjamin Harrison (1889-1893)

Tentativa de liderança dos EUA

Estabeleceu o Bureau Comercial das Repúblicas Americanas

■ Na Conferência de 1910 (Buenos Aires) o Bureau originou a União Pan-Americana.

■ Na Conferência de 1948 (Bogotá), a União Pan-Americana virou a Organização dos Estados Americanos (OEA) com sede em Washington.

1895. Primeira crise internacional venezuelana

Presidência do democrata Grover Cleveland (1893-1897)

Confronto Venezuela versus Grã-Bretanha: disputas pela fronteira com a Guiana (colônia britânica)

Grã-Bretanha recua, aceita arbitragem internacional e reconhece a preeminência dos EUA na região.

A partir desse episódio, a GB tendeu a se alinhar com os EUA para proteger seus interesses na América Latina

1898. Guerra Hispano-Americana

Presidência do republicano William McKinley (1897-1901)

Causada pelos interesses dos EUA em Cuba (colônia espanhola) e pelo seu envolvimento na Guerra de Independência Cubana (1895-1898)

Derrota da Espanha

EUA tomam as Filipinas (Ásia), Guam (Pacífico) e Porto Rico (Caribe)

Cuba fica independente (protetorado dos EUA)

■ 1898-1902. Ocupação americana de Cuba

■ 1901. Emenda Platt na constituição cubana: EUA tinham o direito de intervenção militar no país (emenda abolida em 1934)

■ 1902. Independência oficial de Cuba

■ 1903. Tratado Cubano-Americano: EUA arrendaram em caráter perpétuo a base militar de Guantánamo (controlada até hoje pelos americanos)

1898. Anexação do Havaí

Pelo presidente McKinley

Num acordo com a República do Havaí: um governo criado por brancos de origem americana que tomaram o poder em 1893 (derrubada da monarquia nativa havaiana)

1899. Divisão colonial das Ilhas Samoa

Entre EUA, Alemanha e GB

1899-1902. Guerra Filipino-Americana

Luta pela independência das Filipinas

Nos governos republicanos de McKinley e de Theodore “Teddy” Roosevelt (1901-1909)

Vitória dos EUA

1901-1909. O Big Stick

Presidência de Theodore Roosevelt

Foi o apelido do Corolário Roosevelt da Doutrina Monroe:

■ Direito de intervenção militar dos EUA no Caribe e América Central para proteger os interesses americanos e manter a ordem

■ Os países em crise de pagamento de dívidas externas teriam suas finanças públicas controladas pelos EUA para evitar a ação militar das potências européias credoras na região

1902-1903. Segunda crise internacional venezuelana

■ Grã-Bretanha, Itália e, principalmente, a Alemanha atacam o litoral da Venezuela em represália pelo não-pagamento de dívidas do governo de Cipriano Castro (1899-1908)

■ Confronto EUA-Alemanha diante da ameaça alemã de invadir a Venezuela

■ A Alemanha recua

■ Por causa dessa crise venezuelana, Roosevelt lançou oficialmente seu corolário em 1904

1903-1904. Intervenção no Panamá

■ EUA incentivam a independência do Panamá (território da Colômbia) para construir e controlar o Canal do Panamá

1904. Tratado Hay-Bunau-Varilla

■ O Panamá concede aos EUA um território para a construção do canal (a Zona do Canal) que ficou sob controle americano em troca de um arrendamento perpétuo

■ O Panamá transformou-se em um protetorado dos EUA

■ O Canal do Panamá foi construído em 1907-1914 e a Zona do Canal virou, na prática, uma colônia americana

1903-1909. Intervenções na República Dominicana, Honduras e Cuba

■ Restaurar a ordem política e a estabilidade financeira local 

1909-1913. Diplomacia do Dólar

Presidente republicano William Taft

Extensão do Corolário Roosevelt

■ Os EUA tinham o direito e obrigação de intervir em qualquer país latino-americano que, em razão de sua instabilidade política e financeira, estivesse ameaçado pelas potências européias

Intervenções na Nicarágua, Honduras e Cuba

1.3 Japão

a) A Era Meiji: o reinado do imperador Mutsuhito (1867-1912)

1868-1889. Revolução Meiji

Modernização capitalista dirigida pelo Estado

Desenvolvimento industrial e fortalecimento militar

1889. Constituição Meiji

■ Modelo prussiano

■ Monarquia constitucional autoritária

Elite dirigente oligárquica e militarista

Expansão na Ásia Oriental e Pacífico: tendência de confronto com a China e com o Ocidente

1894-1895. Primeira Guerra Sino-Japonesa

Disputa com a China pela Coréia (controlada pelos chineses)

Derrota chinesa

Tratado de Shimoneseki (1895)

■ Independência da Coréia (sob crescente influência japonesa)

■ Japão anexa Taiwan e a Península de Liaodong (no norte da China)

1895. Recuo japonês em Liadong

Pressionado pela Rússia, Alemanha e França, o Japão devolve o Liaodong à China

1895-1904. Crescente confronto com a Rússia pelo controle da Coréia e da Manchúria (no norte da China)

1902. Aliança Anglo-Japonesa

Ajuda militar caso um dos dois entrasse em guerra contra mais de uma potência

Contra a Rússia

1904-1905. Guerra Russo-Japonesa

Disputa pela Manchúria e a Coréia

Precipitou a Revolução Russa de 1905

Vitória (difícil) do Japão

Tratado de Portsmouth (1905)

■ Japão virou a potência dominante na Coréia e Manchúria

■ Anexação do sul das ilhas Sakhalin (da Rússia)

1910. Anexação da Coréia

2. A modernização da Rússia

2.1 Aspectos gerais da Rússia em 1900

a) Política interna

Império multiétnico euro-asiático com capital em São Petersburgo

■ Composição étnica: 43% russos e 57% não-russos (ucranianos, poloneses, baltos, finlandeses, turcos da Ásia Central)

■ Os judeus (5 milhões) compunham 4% da população e estavam concentrados na Polônia e Ucrânia

– Havia um forte antissemitismo (não-oficial) e perseguições populares periódicas (pogroms)

O czarismo: monarquia absolutista do czar ou tsar sob a dinastia Romanov

■ Apoiado em uma poderosa burocracia, na nobreza, na Igreja Ortodoxa Russa e no exército

1894-1917. Reinado do czar Nicolau II

b) Política externa

Ambições imperialistas nos Bálcãs, no Oriente Médio e no Extremo Oriente

Busca de uma saída para o Mar Mediterrâneo

Dominar Constantinopla e o Estreito de Dardanelos

Principal alvo: o Império Turco Otomano

Atrito com a Grã-Bretanha e França

Estabelecer Estados aliados nos Bálcãs

O principal era a Sérvia

Ideologia do pan-eslavismo pregando a cooperação entre povos eslavos e de que a Rússia era a protetora desses povos

Atrito com a Áustria-Hungria

Expansão na direção do Golfo Pérsico e do Índico

Principais alvos: Pérsia (Irã) e Afeganistão

Atrito com a Grã-Bretanha: o “Grande Jogo” pelo controle da Ásia Central e do Irã

Expansão no Extremo Oriente (Pacífico Norte)

Principais alvos: China (Manchúria) e Coréia

Atrito com o Japão

b) Economia

A menos desenvolvida das grandes potências da Europa

Capitalismo agrário em rápido processo de modernização (industrialização acelerada)

Forte intervenção estatal

Muitos investimentos estrangeiros (principalmente franceses) e estatais

c) Sociedade

Classe dominante: aristocracia (nobreza) e alta burocracia (grandes funcionários, maioria da nobreza)

Burguesia fraca, dependente do Estado e associada  ao  capital  estrangeiro

Os camponeses (mujiques) eram a maioria da população

Kulaks: camponeses “ricos” (classe média rural)

■ Eram uma importante base de apoio do czarismo

O czar era visto por eles como o seu “pai” e protetor

– Forneciam a maior parte dos recrutas do exército

Classe média urbana em crescimento

Proletariado urbano-industrial também em crescimento e concentrado nas grandes cidades (São Petersburgo e Moscou)

d) A oposição ao czarismo



Liderada pela “intelligentsia”: intelectuais engajados politicamente, em geral da esquerda, sobretudo da classe média (destaque para os estudantes)



■ Consideravam-se representantes dos interesses populares, almejando assumir o poder sob influência de idéias democráticas radicais, socialistas e anarquistas



■ Organizaram partidos políticos ilegais para combater o czarismo e criar um novo regime considerado por eles mais justo e progressista.



Liberais



Queriam reformar o regime (adoção do parlamentarismo, direitos individuais, liberdade política, redução dos impostos) sem desafiar violentamente o czarismo



Fraqueza do movimento liberal:



■ Reflexo da natureza da burguesia (a principal base social de sustentação do liberalismo) na Rússia



■ O empresariado russo era muito dependente do Estado, sem o poder de pressão ou de influência dos seus congêneres da Europa Ocidental



Partido Socialista Revolucionário (SR)



Organização socialista não-marxista, mais influente no meio rural



Enfatizava o papel dos camponeses na derrubada do czarismo e na construção do socialismo



Herdeiro das tradições socialistas dos narodniks (“populistas”)



Forte tradição terrorista: atentados contra as autoridades



Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR)



Organização marxista



Influenciado pela Segunda Internacional



■ Organização de partidos socialistas, destacando-se o SPD, que preconizava a cooperação internacional dos trabalhadores visando à destruição do capitalismo em todo o mundo



Consideravam a Rússia um país muito “atrasado” (agrário), que ainda não estava maduro para o socialismo



Defendiam uma revolução “democrática burguesa” liderada pelo proletariado com apoio dos camponeses e de setores democráticos da burguesia



Criar primeiro uma república favorável ao desenvolvimento do capitalismo industrial com reformas sociais (distribuição de terras, leis trabalhistas) para depois construir um regime socialista avançado 



1903. Divisão do POSDR em duas facções:



Mencheviques



– Queriam um partido de base operária mais ampla, frouxa e descentralizada possível



Bolcheviques



– Organizados e liderados por Lênin



Queriam um partido mais centralizado dirigido por um grupo pequeno e disciplinado de revolucionários profissionais – uma elite revolucionária vista como a “vanguarda do proletariado”.



Em 1912 formaram um partido separado que originou o Partido Comunista (1918)



2.2 A Revolução de 1905



a) Introdução



A Revolução de 1905 foi o primeiro levante das massas urbanas contra o czarismo



Ela inaugurou a Era das Revoluções do século XX



Antes da Primeira Guerra Mundial, as revoluções, em geral sob forte influência do nacionalismo, ocorreram em países atrasados em processo de modernização e tinham como objetivo criar regimes democráticos constitucionais



1905. Revolução Russa



1905-1907. Revolução Persa



1908. Revolução dos Jovens Turcos



1910. Revolução Mexicana



1911. Revolução Chinesa



A partir da Primeira Guerra Mundial, as idéias socialistas, combinadas com o nacionalismo, passaram a ter uma maior influência na maioria das revoluções do século XX



b) Motivos



Crescente tensão social e instabilidade política em 1900-1904



Greves operárias



Confrontos entre opositores e a polícia



Aumento de atentados terroristas



Derrota da Rússia na Guerra Russo-Japonesa (1904-1905)



Deixou o governo de Nicolau II enfraquecido



Agravou os problemas econômicos



c) Destaques


 


22 de janeiro. Domingo Sangrento (9 de janeiro no antigo calendário russo)


 


Na capital São Petersburgo


 


Guardas do Palácio de Inverno atiram numa multidão de manifestantes liderados pelo padre Gapon


 


Precipitou uma onda de agitações populares contra o czarismo, iniciando a Revolução de 1905.




27 de junho. Motim do Encouraçado Potemkin em Odessa



5 de setembro. Tratado de Portsmouth: acordo de paz com o Japão



Outubro-novembro. Apogeu da revolução



20 de outubro. Uma greve de ferroviários vira greve geral, a primeira da história russa



Os liberais organizaram o Partido Constitucional-Democrático (Kadet): defesa de uma monarquia parlamentar



Nas cidades surgiram sovietes (“conselhos” revolucionários de trabalhadores), agindo inicialmente como comitês para dirigir as greves



26 de outubro. Criação do Soviete de São Petersburgo: governo revolucionário



Sob o controle dos sociais-democratas, principalmente dos mencheviques



30 de outubro. Manifesto de Outubro de Nicolau II



Promessa de constituição, legislativo eleito e liberdades civis



O Manifesto dividiu o movimento revolucionário



Os moderados, sobretudo os Kadets, aceitaram as concessões



Fundação do Partido Outubrista (a União de Outubro) por setores da burguesia e da nobreza de linha conservadora-liberal, em apoio às promessas do imperador



Novembro. A revolução popular perdeu força



Os ferroviários voltaram ao trabalho, os amotinados depuseram as armas e a greve geral foi encerrada



Mas a maior parte da esquerda recusou o Manifesto e tentou levar adiante a revolução (criar uma república democrática favorável aos trabalhadores)



Liderado por Trotski (membro independente do Partido Social-Democrata), o soviete de São Petersburgo preparou um levante armado e uma nova greve geral



O soviete de Moscou (controlado pelos bolcheviques) tentou fazer o mesmo



Fracasso da revolução soviética. Motivos:



Ausência de uma grande rebelião (motim) do exército, cujas tropas continuaram apoiando o czar



Agitação operária em refluxo



Falta de apoio decisivo dos camponeses



Em novembro-dezembro. O governo dissolve os sovietes de São Petersburgo e de Moscou e prende seus líderes.



d) Conseqüências e significado da Revolução de 1905



Criação de uma constituição (Leis Fundamentais) e de um Parlamento (Duma)



Mas a monarquia continuou autoritária:



A Duma tinha pouco poder



O czar escolhia o primeiro-ministro, que era independente da Duma



Para os marxistas, 1905 foi uma revolução “democrático-burguesa” limitada



■ Iniciada pelos trabalhadores, mas que a burguesia (liberais), devido a sua fraqueza, não conseguiu concluir



■ Mas a revolução serviu de experiência porque:



Mostrou os limites da burguesia e do liberalismo russo em democratizar o regime



Mostrou a necessidade de uma aliança mais sólida entre o operariado e os camponeses



Criou a experiência dos sovietes



Deixou clara a fraqueza do regime em uma guerra contra uma potência mais bem-equipada



■ Mais tarde, a Revolução de 1905 foi considerada pelos marxistas um “ensaio geral da Revolução de 1917”