sábado, 26 de março de 2011

40 - Povoamento da América

Segue uma notícia que saiu na Veja (versão digital de 23 de março de 2011), relatando um estudo publicado na revista Science, sobre a descoberta de vestígios que indicam que o povoamento da América começou há mais tempo do que muitos imaginaram. Na verdade, a datação mais antiga vem sendo proposta por pesquisadores há décadas, mas parte da comunidade acadêmica, sobretudo estudiosos dos EUA, insistia em uma datação mais recente. As descobertas citadas na reportagem reforçam os argumentos dos defensores do povoamento mais antigo. Outra observação: o texto fala de uma “civilização” que teria chegado há mais tempo na América. Naturalmente, o termo civilização, neste caso, está sendo usado como sinônimo de uma cultura material e não no sentido de uma sociedade complexa com cidades e Estado, como se costuma considerar.

Homem já ocupava América do Norte há 15.500 anos

Ferramentas achadas no Texas são 2.500 anos mais antigas que os vestígios dos humanos de Clóvis, conforme estudo publicado na 'Science’

O homem chegou à América do Norte 2.500 anos antes do que se pensava, de acordo com um estudo publicado no periódico americano Science. Cientistas da Universidade Texas A&M analisaram mais de 15.000 objetos de pedra encontradas a 65 quilômetros de Austin, no Texas (EUA), e estimaram que foram feitos há 15.500 anos. Até agora, a evidência mais antiga da ocupação humana na América do Norte era o sítio arqueológico de Clóvis, no estado do Novo México (EUA), onde foram encontrados vestígios de uma civilização que teria cruzado o Estreito de Bering, da Ásia à América do Norte, há 13.000 anos.

Os 15.000 objetos foram encontrados abaixo da camada de terra comumente associada ao período dos humanos de Clóvis. Para o arqueólogo Michael Waters, chefe da pesquisa, o achado é a indicação de que existiu uma civilização (sic) mais antiga do que se pensava na América do Norte. "A descoberta nos desafia a repensar como ocorreu a colonização do continente americano", disse o cientista, em entrevista ao jornal inglês Guardian.

A maior parte dos objetos encontrados são os restos da fabricação e manutenção de outras ferramentas. Contudo, "mais de 50 são ferramentas propriamente ditas", disse Waters. De acordo com o arqueólogo existem objetos que aparentam ser projéteis e outros que foram feitos com o propósito de raspar e cortar. Os cientistas acreditam que as ferramentas eram pequenas para que pudessem ser levadas com facilidade para outras localidades. 
Embora os objetos sejam diferentes da cultura Clóvis, Waters acredita que os dois sítios arqueológicos podem ter ligação. "A civilização que produziu os objetos que encontramos teve tempo suficiente para aprender a construir objetos que hoje reconhecemos como sendo da cultura Clóvis", disse. "Acho que passou da hora de formularmos um novo modelo para o povoamento das Américas", afirmou o arqueólogo.

quinta-feira, 17 de março de 2011

39 - Especial sobre a Primeira Guerra Mundial

Pessoal, vejam que material excelente sobre a Primeira Guerra Mundial no link abaixo:
http://veja.abril.com.br/historia/primeira-grande-guerra-mundial/

38 - Democracia e liberdade de opinião

Pessoal, segue parte de um texto interessante do jornalista Reinaldo Azevedo sobre a liberdade de opinião. Ele foi publicado originalmente na edição eletrônica da Veja em 16 de março de 2011. Clique no título para ler o texto na íntegra


Tenho afirmado e escrito freqüentemente que aprecio a democracia menos pelo valor afirmativo do sistema do que por seu valor negativo; ou seja, menos pela prevalência da vontade da maioria do que pela possibilidade de as minorias dizerem o que pensam. Afinal, nas ditaduras, também é permitido concordar. Pode-se dizer “sim” em Nova York, em Trípoli e em Pequim. A segurança para dizer “não” é que distingue os regimes.

Da mesma forma que o teste de resistência da democracia é feito por aqueles que discordam de consensos — sejam estes legítimos ou não, embasados ou não em verdades científicas —, o teste de resistência dos democratas se dá quando confrontados com idéias que consideram absurdas, irrealistas, detestáveis até. Aceitar que o outro exponha a sua “verdade”, por mais estúpida que nos pareça, testa a nossa capacidade de conviver com a diferença. Isso não significa, e meu trabalho espelha essa minha postura, que não devamos, nós também, ser, então, “detestáveis” à nossa maneira aos olhos de quem discorda de nós. É preciso dizer com clareza e destemor o que se pensa, e não com o intuito de destruir o outro, de “eliminar a contradição”, de “extirpar” o adversário.

Mas quem não quer a liberdade de expressão? Bem poucas pessoas teriam a coragem de fazer a defesa aberta da censura. Aprendemos todos que não se fazem certas coisas em público, e alinhar-se com os valores democráticos integra o rol das escolhas educadas, decorosas. Assim, raramente, ou nunca, temos a chance de nos defrontar com um inimigo da liberdade de expressão. Eles, no entanto, existem e se manifestam de forma insidiosa — não raro, recorrem a princípios consagrados pela democracia para poder solapá-la.

Uma expressão está na moda, posta para circular, sobretudo, pelas ONGs: os chamados “temas transversais”, aqueles que atravessariam várias esferas da vida e do conhecimento, transformados, em si mesmos, em valores morais inquestionáveis. O tal Programa “Nacional-Socialista” de Direitos Humanos, por exemplo, chegava a prever a cassação da licença de emissoras de rádio e televisão se ficasse caracterizado o desrespeito aos direitos humanos. Notem o truque: quem é contra os “direitos humanos”? Ninguém! Quem iria definir o que caracterizava esse respeito? Ali estava a armadilha.

Os chamados “temas transversais” costumam ser uma espécie de bula do chamado pensamento politicamente correto, que perverte o valor democrático essencial: o direito de a minoria expressar a divergência. Essa derivação pervertida transforma a proteção às minorias numa agressão aos valores universais da democracia. Não é raro ouvirmos hoje magistrados, inclusive alguns da nossa corte suprema, a afirmar que a lei deve, sim, tratar desigualmente os desiguais porque cumpriria ao juiz corrigir injustiças que a sociedade a tempo não corrigiu.

Ora, numa democracia, o princípio que estabelece que todos os homens são iguais perante a lei não busca ofuscar a condição dos graúdos, mas estabelecer uma instância — a Justiça — em que o pequeno não será punido porque pequeno nem poupado de seus crimes; em que o grande não será protegido porque grande, mas também não terá seus direitos aviltados por isso.
Como justificar, por exemplo, a concessão de cotas raciais à luz da Constituição brasileira se não por intermédio de valores, e ninguém conseguiria provar o contrário, ausentes em nossa Constituição? Agride-se o princípio fundamental da igualdade dos homens perante a lei argumentando-se a aplicação dos fundamentos do Artigo 3º, a saber:

Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:
I - construir uma sociedade livre, justa e solidária;
II - garantir o desenvolvimento nacional;
III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais;

Será lícito, no entanto, aplicar o que prevê os três incisos discriminando pessoas, seja essa discriminação positiva ou negativa? O inciso seguinte do mesmo artigo responde:

IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.

O debate das cotas, no entanto, foi interditado. O Estatuto da Igualdade Racial aprovado pelo Congresso, embora na sua versão mitigada, coleciona uma penca de agressões à Constituição. Em breve, outro tema voltará ao debate: a chamada lei que criminaliza a homofobia. Não duvido de que as pessoas empenhadas em sua aprovação tenham o propósito de combater a discriminação, mas o texto agride, de maneira inequívoca, a liberdade de expressão. Uma simples opinião que possa ser caracterizada como “ação vexatória de ordem filosófica” — seja lá o que isso signifique — pode render cadeia. O crime será considerado inafiançável e imprescritível.

A patrulha politicamente correta, orientada pelo espírito da reparação e da correção das desigualdades e das injustiças, constitui-se numa verdadeira polícia do pensamento. Agride a liberdade de expressão e, muitas vezes, agride os fatos, impedido até mesmo a avaliação da eficiência de determinadas políticas públicas.

Na entrevista publicada pela VEJA, na semana passada, o professor  americano de economia Walter Williams, negro, afirma:

“Antes, uma menina grávida era uma vergonha para a família. Hoje, o estado de bem-estar social premia esse comportamento. O resultado é que, nos anos da minha adolescência, entre 13% e 15% das crianças negras eram filhas de mãe solteira. Agora, são 70%.”

Por Reinaldo Azevedo


37 - Video: Modernização e desenvolvimento social

Pessoal, o professor Rafael Riemma me enviou um excelente video sobre o impacto da modernização/industrialização no desenvolvimento social de diversos países. É um filme pequeno (4 minutos) e bem didático, apresentado na forma de um gráfico muito bem bolado. O link segue abaixo. Não deixem de ver!
http://sorisomail.com/partilha/129446.html

segunda-feira, 14 de março de 2011

36 - As melhores universidades do mundo

Uma pesquisa realizada pela Times Higher Education (THE) de Londres com 13 mil professores de todo o mundo, elegeu as 100 melhores universidades.
Entre as 100, o Brasil não está presente. A única instituição de Ensino Superior brasileira foi a Universidade de São Paulo (USP) e apareceu na 232ª posição. A universidade, mesmo não estando em uma boa colocação, foi a única que representou a América Latina. Já a líder do ranking, que obteve pontuação máxima em todos os critérios, foi a Universidade de Harvard nos Estados Unidos.
Lista das 20 melhores universidades do mundo:

1.       Harvard University - Estados Unidos
2.       Massachusetts Institute of Technology – Estados Unidos
3.       University of Cambridge - United Kingdom
4.       University of California Berkeley - Estados Unidos
5.       Stanford University – Estados Unidos
6.       University of Oxford -  United Kingdom
7.       Princeton University - Estados Unidos
8.       University of Tokyo - Japão
9.       Yale University - Estados Unidos
10.    California Institute of Technology - Estados Unidos
11.    Imperial College London - United Kingdo
12.    University of California Los Angeles - Estados Unidos
13.    University of Michigan - Estados Unidos
14.    Johns Hopkins University - Estados Unidos
15.    University of Chicago - Estados Unidos
16.    Cornell University - Estados Unidos
17.    University of Toronto -  Canada
18.    Kyoto University - Japão
19.    University College London -  United Kingdom
20.    University of Massachusetts - Estados Unidos

Veja a relação completa das 100 melhores Universidades do mundo: Times Higher Education.

domingo, 13 de março de 2011

35 - Sociedade justa

Pessoal, segue um texto interessante do filósofo Olavo de Carvalho sobre o ideal de uma “sociedade justa”. Publicado no Diário do Comércio, em 10 de março de 2011, o texto também está disponível no site do autor em http://www.olavodecarvalho.org/index.html?index.htm

Sociedade justa
Outro dia perguntaram qual o meu conceito de uma sociedade justa. A palavra “conceito” entrava aí com um sentido antes americano e pragmatista do que greco-latino. Em vez de designar apenas a fórmula verbal de uma essência ou ente, significava o esquema mental de um plano a ser realizado. Nesse sentido, evidentemente, eu não tinha conceito nenhum de sociedade justa, pois, persuadido de que não cabe a mim trazer ao mundo tão maravilhosa coisa, também não me parecia ocupação proveitosa ficar inventando planos que não tencionava realizar.

O que estava ao meu alcance, em vez disso, era apenas analisar a idéia mesma de “sociedade justa” – o seu conceito no sentido greco-latino do termo – para ver se fazia sentido e se tinha alguma serventia.

Desde logo, os atributos de justiça e injustiça só se aplicam aos entes reais capazes de agir. Um ser humano pode agir, uma empresa pode agir, um grupo político pode agir, mas “a sociedade”, como um todo, não pode. Toda ação subentende a unidade da intenção que a determina, e nenhuma sociedade chega a ter jamais uma unidade de intenções que justifique apontá-la como sujeito concreto de uma ação determinada. A sociedade, como tal, não é um agente: é o terreno, a moldura onde as ações de milhares de agentes, movidos por intenções diversas, produzem resultados que não correspondem integralmente nem mesmo às intenções deles, quanto mais às de um ente genérico chamado “a sociedade”!

“Sociedade justa” não é portanto um conceito descritivo. É uma figura de linguagem, uma metonímia. Por isso mesmo, tem necessariamente uma multiplicidade de sentidos que se superpõem e se mesclam numa confusão indeslindável, que basta para explicar por que os maiores crimes e injustiças do mundo foram praticados, precisamente, em nome da “sociedade justa”. Quando você adota como meta das suas ações uma figura de linguagem imaginando que é um conceito, isto é, quando você se propõe realizar uma coisa que não consegue nem mesmo definir, é fatal que acabe realizando algo de totalmente diverso do que imaginava. Quando isso acontece há choro e ranger de dentes, mas quase sempre o autor da encrenca se esquiva de arcar com suas culpas, apegando-se com tenacidade de caranguejo a uma alegação de boas intenções que, justamente por não corresponderem a nenhuma realidade identificável, são o melhor analgésico para as consciências pouco exigentes.

Se a sociedade, em si, não pode ser justa ou injusta, toda sociedade abrange uma variedade de agentes conscientes que, estes sim, podem praticar ações justas ou injustas. Se algum significado substantivo pode ter a expressão “sociedade justa”, é o de uma sociedade onde os diversos agentes têm meios e disposição para ajudar uns aos outros a evitar atos injustos ou a repará-los quando não puderam ser evitados. Sociedade justa, no fim das contas, significa apenas uma sociedade onde a luta pela justiça é possível. “Meios” quer dizer: poder. Poder legal, decerto, mas não só isso: se você não tem meios econômicos, políticos e culturais de fazer valer a justiça, pouco adianta a lei estar do seu lado. Para haver aquele mínimo de justiça sem o qual a expressão “sociedade justa” seria apenas um belo adorno de crimes nefandos, é preciso que haja uma certa variedade e abundância de meios de poder espalhados pela população em vez de concentrados nas mãos de uma elite iluminada ou sortuda. Porém, se a população mesma não é capaz de criar esses meios e, em vez disso, confia num grupo revolucionário que promete tomá-los de seus atuais detentores e distribuí-los democraticamente, aí é que o reino da injustiça se instala de uma vez por todas. Para distribuir poderes, é preciso primeiro possuí-los: o futuro distribuidor de poderes tem de tornar-se, antes, o detentor monopolístico de todo o poder. E mesmo que depois venha a tentar cumprir sua promessa, a mera condição de distribuidor de poderes continuará fazendo dele, cada vez mais, o senhor absoluto do poder supremo.

Poderes, meios de agir, não podem ser tomados, nem dados, nem emprestados: têm de ser criados. Caso contrário, não são poderes: são símbolos de poder, usados para mascarar a falta de poder efetivo. Quem não tem o poder de criar meios de poder será sempre, na melhor das hipóteses, o escravo do doador ou distribuidor.

Na medida em que a expressão “sociedade justa” pode se transmutar de figura de linguagem em conceito descritivo viável, torna-se claro que uma realidade correspondente a esse conceito só pode existir como obra de um povo dotado de iniciativa e criatividade – um povo cujos atos e empreendimentos sejam variados, inéditos e criativos o bastante para que não possam ser controlados por nenhuma elite, seja de oligarcas acomodados, seja de revolucionários ávidos de poder.

Aquele que deseja sinceramente libertar o seu povo do jugo de uma elite mandante não promete jamais tomar o poder dessa elite para distribuí-lo ao povo: trata, em vez disso, de liberar as forças criativas latentes no espírito do povo, para que este aprenda a gerar seus próprios meios de poder – muitos, variados e imprevisíveis –, minando e diluindo os planos da elite – de qualquer elite – antes que esta possa sequer compreender o que se passou.
                                                                                                                                                                                    Olavo de Carvalho

segunda-feira, 7 de março de 2011

34 - Exposição "Hitler e os alemães"

Pessoal, segue um texto interessante do historiador Francisco Carlos Teixeira sobre a exposição “Hitler e os alemães”, organizada em Berlim. O texto saiu no site Carta Maior.
Hitler de volta a Berlim
Neste inverno de 2011 a cidade de Berlim hospeda a exposição “Hitler e os alemães: ‘Volskgemeinschaft’ (1) e Criminosos”. O sucesso da exposição foi tamanho que, algo raro para o calendário alemão, a exposição foi prolongada para além do seu término programado (no início de fevereiro de 2011), permitindo a continuada visita de adolescentes e seus professores, jovens e grupos de militares das forças aramadas alemães. 

Hitler no coração do militarismo alemão
O evento realiza-se na chamada “Zeughaus”, a antiga Casa de Armas do Império alemão (1871-1918), no centro histórico de Berlim
 (2). O próprio endereço da exposição – na famosa rua Unter den Linden (Sob as Tílias) a poucos metros da “Neue Wache” (a Guarda Nova) – é sintomático. Este vasto espaço da cidade de Berlim, entre o Sigsäule – a Coluna da Vitória, construída após a vitória alemã contra os franceses em 1871 (e montada com os canhões franceses tomados na Batalha de Sedan) - e a Ponte do Castelo, onde ficava o castelo imperial da dinastia Hohenzollern, passando pelo Arco do Brandenburgo, foi palco dos principais eventos de massa organizados pelo regime nazista (em verdade pelo ministro da informação e propaganda, Joseph Goebbels). Foi neste espaço histórico, carregado de eventos, alguns bastante tenebrosos, que um grupo de historiadores e museólogos resolveu instalar a exposição sobre Hitler.

Uma exposição sobre o silêncio
Na própria exposição fotos e filmes do período nazista mostram as marchas massivas, na maioria dos casos noturnas com tochas nas mãos, nas quais milhares de alemães das SA e das SS desfilavam para impressionar e seduzir as massas alemães naquele mesmo local. Há poucos metros da Zeughaus, hoje transformada em Museu Histórico Alemão – da mesma forma que no Rio transformamos a antiga Casa do Trem em Museu Histórico – ficava o Palácio Imperial, sede do governo durante o Império e a República de Weimar (1919-1933), onde Hitler fez inúmeros de seus discursos. Toda a área seria objeto, após a suposta vitória alemã na Segunda Guerra Mundial, de ampla remodelação, gigantesca e inumana, organizada por Albert Speer, o arquiteto de Hitler, a fim de transformar Berlim em símbolo do poder ariano e na mais portentosa capital da Europa.

Na verdade, o conjunto arquitetônico foi duramente bombardeado por ingleses e americanos durante o chamado “Der Brand” – o Incêndio, como a historiografia alemã denomina as conseqüências da estratégia aérea do General (inglês) Harris contra o Terceiro Reich. Mais tarde, em 1945, foi palco central da Batalha de Berlim, quando finalmente os soviéticos conquistaram a capital do Terceiro Reich e puseram fim ao “Império de mil anos” de Hitler.

Tal escolha e centralidade da realização da exposição são importantes e eloqüentes e faz parte da própria concepção do evento. Na verdade, “Hitler e os alemães” possui um claro objetivo, ao mesmo tempo histórico e político.

Por que voltar a Hitler?
Para os realizadores da exposição trata-se de mudar o foco dos debates e da forma de expor e retratar Hitler e o Terceiro Reich
 (3) . Para estes, a maior parte das exposições, eventos e livros estão centrados na própria figura de Hitler, na sua biografia e na sua “carreira”. Hitler surgeria assim como a personificação do mal. Mas, o Terceiro Reich foi obra solitária de Hitler? Caberia, para mudar o foco considerado insuficiente, responder a uma dupla pergunta: Por que Hitler foi possível? E, em segundo lugar, qual o significado da escolha de Hitler – e foi uma escolha, conforme os organizadores – pelo povo alemão em 1933? E por que continuaram a apoiá-lo até o fim em 1945?

Assim, a centralidade da própria figura de Hitler deveria ser deslocada em favor daqueles que o escolheram e das condições em que tal escolha foi feita. Exposições anteriores, mesmo as mais importantes, e grandes livros que marcam a literatura vastíssima sobre o Terceiro Reich encontram-se por demais centradas na figura do próprio Führer – como a grande e documentada biografia de Joachim Fest ou o filme “A Queda”. Não seria isso produto da própria propaganda nazista?

Trabalhando para Hitler
Livros fantásticos como de Karl-Dietrich Bracher, Joaquim Fest, Hans Mommsen ou Ian Kershaw
 (4) – este recentemente editado no Brasil com um bom trabalho de tradução e de composição – buscam no próprio Hitler a explicação do fenômeno do nazismo. A participação da massa alemã – afinal 33% da população adulta votou no Partido Nazista em 1933 – originaria, no âmbito da discussão chamada “A Querela dos Historiadores” (o chamado “Historikerstreit”), a discutir muitio mais o papel do ditador do que as condições de exercício do poder pelo Partido Nazista e seus aderentes. Teses novas, e intensos debates entre professores universitários alemães nos anos 80 e, um pouco mais tarde, desembocaram na já célebre explicação defendida por Ian Kershaw. Trata-se da idéia de um amplo grupo de pessoas que se dedicaram a “working for Hitler” – trabalhar para Hitler. Uma adesão livre da população e expontânea, definida a partir de demandas e comandos superiores, no mais das vezes do próprio Führer.

A questão principal colocada pela exposição, de forma clara e direta, remete a adesão e entusiasmo com que a população alemã participou do Terceiro Reich. Ao lado do fenômeno já amplamente estudado e sobre o qual paira uma boa concordância, chamado de “Gleichhaltung” da sociedade alemã nos primeiros anos do nazismo (1933 até 1936) – ou seja, o conjunto de medidas tomadas pelo Estado nazista visando organizar a sociedade conforme as idéias propostas pelo nacional-socialismo. Nicos Poulantzas, numa obra já antiga – e em vários aspectos superada – denominou a “Gleichhaltung” como “processo de fascistização”.
 

Ora, os organizadores da exposição propõem além da “Gleichhaltung” – sob comando do Estado, portanto de cima para baixo – uma “Selbstgleichaltung”, ou seja, um processo de fascistização comandado e assumido pela própria (“selbst”) sociedade.
 

Questionado o silêncio
Assim, a resposta da questão dupla acima colocada voltar-se-ia para a própria sociedade alemã, buscando estabelecer nos desejos, esperanças e frustrações do povo alemão a adesão para com o nacional-socialismo. Os textos e guias da exposição não temem utilizar a expressão “cooperação” – “mitmachen” – para dar conta da relação entre povo, partido e seu Führer.
 

Eis aqui um passo importante e original no debate historiográfico. Tradicionalmente a posição de historiadores e políticos alemães (em especial na República Federal) colocava os próprios alemães como vítimas do nazismo. Desde Konrad Adenauer (primeiro chanceler da república Federal) a derrota de 1945 é descrita como a “libertação” dos alemães, alterando profundamente o próprio sentido da história. Para outros, bem ao contrário, havia uma “culpa coletiva” que recobria, com um manto de infâmia, todos os alemães.

Na exposição “Hitler e os alemães” existe uma gradação muito clara de “Faszination” e de “Cooperação” (“mitmachen”) até a aprovação (“billigen”) dos próprios crimes do nazismo, bem como de oposição e resistência (fatos diferenciados) e que implica em plena consciência dos contemporâneos de Hitler sobre o fenômeno que vivenciavam, bem como sua natureza violenta e a compreensão do alcance criminoso do nazismo.
 

O pretenso poder de Hitler foi, desta forma, preencher as expectativas e esperanças pré-existentes do povo alemão, não sendo ele mesmo o “autor” ou “produtor” de tais expectativas.
 

A própria aceitação, com entusiasmo, frieza ou simplesmente oportunismo, do conceito de “Volskgemeinschaft” por parte do povo alemão implicava na cooperação com o nazismo. A noção de “comunidade do povo”, conforme construído sob o nazismo, teria em seu núcleo uma promessa real de violência.
 

A adesão
Neste sentido na vigência das noções de decorrentes de “Volksgemeischaft” – tais como a pureza do sangue ariano, a exclusão de deficientes e de “diferentes” de todo tipo, a substituição dos conflitos de classe pela cooperação entre os membros da raça superior – plena de violência normativa impregnava a sociedade alemã de forma brutal.
 

Conforme os organizadores, tal violência não era, de forma alguma, decorrente de ordens e decisões “nur von homem” – apenas vindas “de cima”, demandadas de forma implícita ou explicita pelo regime e seus diversos pequenos “Führers” setoriais e regionais. A violência era produzida – no processo de exclusão social produzido pela aceitação voluntária das nações de “Volksgemeischaft” - através de um processo oriundo, ou mesmo antecipado, das próprias bases da sociedade alemã – “durch Prozesse an der Basis”.
 

Esta é, sem dúvida, uma discussão dura e amarga e que envolve o povo alemão. Mas, a análise direta e responsável do grupo de pedagogos e historiadores que o organizaram a exposição implica numa ampla capacidade comparativa com todas as demais ditaduras. Eis aí um ponto de largo interesse com a América Latina. A questão central estaria, neste caso, em se perguntar se o processo de consumação da violência nas ditaduras é, de alguma, forma diferente ou comparável. Em verdade, se tivermos em mente as experiências históricas das ditaduras latino-americanas – sejam aquelas dos anos 30/40 do século XX ou as ditaduras militares dos anos 60/80 - poderíamos nos perguntar sobre a mesma, em escalas diferenciadas, adesão das sociedades latino-americanas ao processo de violência quotidiana desencadeado pela possibilidade de excluir e punir indivíduos considerados diferentes. Em graus diferentes é um debate recorrente em todos as ditaduras.

NOTAS
(1) O termo “Gemeinschaft!” é de difícil tradução no seu sentido histórico. Embora tenha sido criado pelo sociólogo alemão Tönnies, ainda no século XIX, e seguidamente utilizado no sentido de “comunidade”, em oposição à sociedade, descrevendo sociedades de solidariedade mais mecânica e autoritária, enquanto a sociedade seria mais orgânica e eletiva, no Terceiro Reich assumiu um significado profundamente ideológico representando o conjunto do povo alemão – o Volk – constituído pelo conjunto da população ariana, de sangue superior, na Europa, englobando alemães, austríacos, alemães dos Sudetos e outras populações de sangue ariano. Na exposição este sentido é retomado para recobrir o conjunto da sociedade alemã que aderiu de forma voluntária – passiva ou ativamente – ao nacional-socialismo.

(2) Trata-se de um amplo conjunto arquitetônico construído em pesado estilo barroco a partir de 1706 para ser a armaria do rei da Prússia. Foi amplamente reformada em 2003 pelo famoso arquiteto I.M.Pei, ganhando novas alas modernas e uma ampla cúpula de vidro. Lá estão, em exposição permanente, os principais fatos da história contemporânea alemã, incluindo a guerra e o Holocausto. Há poucos metros fica a Neue Wache ( a Nova Guarda ), construída em 1816 pelo famoso arquiteto prussiano Karl Friedrich Schinkel e cenário de coreográficas manifestações do militarismo prussiano. Hoje a Neue Wache é um monumento às vítimas da guerra, com uma bela escultura de Käthe Kollwitz substituindo os símbolos militares do Reich.

(3) Os organizadores da exposição são os professores Hans-Ulrich Thamer, da Universidade de Munster; a museóloga do Museu Histórico de Berlim Simone Erpel e o arquiteto Klaus-Jürgen Sembach, com a cooperação de historiadores como Michael Sturm.

(4) Estamos aqui conscientemente excluindo do debate a tese de Daniel Goldhagen sobre a predisposição histórica da população alemã ao Holocausto, conforme expressa em “Os carrascos voluntários de Hitler”, por sua vaguidão histórica, ausência de pesquisa própria e caráter sensacionalista

                                                                 Francisco Carlos Teixeira. Carta Maior, 2 de março de 2011