domingo, 23 de junho de 2013

65 - As Jornadas de Junho (Parte IV)


Pessoal,  segue uma reportagem do G1 com diversas  análises sobre os protestos das últimas semanas.

Atos são maior mobilização sem líder da história brasileira, dizem analistas

Na quinta, 1,25 milhão protestaram nas ruas em mais de 100 cidades.
Especialistas ouvidos pelo G1 buscam explicações para manifestações.

Os protestos que se espalharam por quase todos os estados do Brasil na quinta-feira (20) representaram a mais ampla e numerosa mobilização popular do país sem liderança definida e, de acordo com dois sociólogos, uma historiadora, um filósofo, dois antropólogos, um advogado e um juiz ouvidos pelo G1, ainda não é possível dizer qual rumo tomarão.

Com mais de 1,25 milhão de pessoas tomando as ruas de mais de 100 cidades, com 300 mil apenas no Rio de Janeiro, os atos comemoraram a redução da tarifa do transporte coletivo em cidades importantes e reivindicaram outras melhorias para o país, como o combate à corrupção e à repressão policial, investimentos na saúde e na educação e a redução de gastos com os grandes eventos esportivos, Copa e Olimpíada.

Para os especialistas, ainda é cedo para prever as consequências de longo prazo dos atos de quinta. Mas, segundo eles, um caráter inédito dessa mobilização popular é a insatisfação geral dos brasileiros com as instituições que os representam e com os partidos políticos que as comandam.

Segundo Márlon Reis, juiz de direito no Maranhão, cofundador do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE) e um dos idealizadores da Lei da Ficha Limpa, o Brasil mudou nesta semana. "Já tem algo inédito que é a ida às ruas sem a liderança de instituições constituídas. Historicamente, foram os partidos que sempre conseguiram levar pessoas às ruas."

A antropóloga Yvonne Maggie, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e colunista do G1, afirmou que "o Brasil se transformou em uma espécie de motim. É protesto, mas num estilo sem liderança, numa visão até romântica. As manifestações partem de grupos variados, com várias estratégias”.

As bandeiras e a participação individual, com rejeição a qualquer tipo de liderança, chamaram a atenção de Yvonne. “Era cada cartaz um post, cada post um indivíduo. Mas o que mais me impressionou foi a consciência de que todas as pessoas que estavam lá estão tendo a força do povo revoltado, eles não querem liderança.”

Segundo a historiadora Maria Aparecida de Aquino, da Universidade de São Paulo (USP), em termos de quantidade de pessoas na rua aglomeradas, o movimento maior do Brasil ainda é o das Diretas Já, quando um comício reuniu um milhão de pessoas apenas no Anhangabaú, em São Paulo. Porém, ela afirma que o movimento atual é novo no sentido de como se organiza. "O chamado se faz pela internet e as pessoas aceitam o chamado pela internet e entram no movimento."

Enquanto governos calculavam prejuízos, manifestantes avaliavam os protestos e familiares enterravam os dois mortos dos atos de quinta, em Ribeirão Preto (SP) e Belém, novos protestos continuavam a eclodir nesta sexta-feira (21). Para Frederico Almeida, coordenador do curso de direito da FGV, pode-se falar em dois movimentos: o primeiro, motivado pelas tarifas, e um segundo momento, em que mais pessoas aderiram motivados por uma insatisfação geral, principalmente após a repressão da polícia. "O que estamos vendo hoje é uma mistura de algum resquício de um movimento pela tarifa, que em algumas cidades ainda não se resolveu, com um movimento de insatisfação geral."

Para Claudio Couto, sociólogo e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), os episódios registrados nas ruas têm deixado analistas e a classe política confusos e perplexos, o que, na avaliação dele, fez com que a presidente Dilma Rousseff não viesse a público na quinta e deixasse seu pronunciamento apenas para esta sexta. "Está todo mundo muito perdido, imagino que ela também esteja. Daí decorre que ela precisa vir a público sabendo o que dizer. Se ela erra o tom do que diz pode gerar mais ruído ainda. Eu interpretaria esse silêncio de uma dificuldade de definir exatamente o que deve ser dito a partir de agora", disse Couto, na tarde desta sexta, antes de o pronunciamento de Dilma ir ao ar.

Vitórias dos manifestantes
Demanda inspiradora dos atos, a redução da tarifa do transporte público foi atendida após duas semanas de protestos e confrontos nas ruas por prefeitos e governadores de São Paulo, Rio de Janeiro e mais de dez cidades. A persistente pressão popular fez com que o discurso dos governantes mudasse. Fernando Haddad e Eduardo Paes, prefeitos de São Paulo e Rio, e Geraldo Alckmin e Sérgio Cabral, governadores dos dois estados, que no início do mês descartavam qualquer revogação do reajuste, sob pretextos de que eles eram tecnicamente impossíveis, recuaram na noite de quarta-feira (19) e atenderam à demanda.

O engenheiro civil Lúcio Gregori, que foi secretário municipal de Transporte de São Paulo na gestão da ex-prefeita Luiza Erundina, a recapitulação das prefeituras mostra que não só a redução era possível. "Isso é tudo um pouco de catimba, como a gente chama no futebol", afirmou ele.

"Admitindo que todas as contas de cálculo tarifário estejam certas, então isso é questão de remanejamento de verbas, coisa corriqueira numa administração pública. A Prefeitura de São Paulo tem manobra orçamentária, pode remanejar até 15% da verba. Não pode tirar de coisas importantes, mas pode tirar, por exemplo, da verba publicitária. O que não precisa é ameaçar como se fosse uma punição."

Em meio às manifestações, outros governantes decidiram dar mais ouvido às demandas relacionadas ao transporte e a outras áreas sociais. Em Macapá e Belém, prefeitos aceitaram receber líderes dos protestos para falar sobre as tarifas. Na capital do Amapá, além da passagem congelada até 2014, o prefeito prometeu um estudo para implantar uma linha de ônibus 24 horas, implantação do bilhete único até o fim do ano, aumentar a frota de ônibus e construir três terminais.

Em São Paulo, nesta sexta-feira o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) anunciou o financiamento de R$ 2,3 bilhões para a expansão do metrô. No Paraná, o governador Beto Richa desautorizou o reajuste de 14,61% na conta de luz. No governo federal, o Ministério da Saúde encaminhou ao Congresso, em caráter de urgência, um projeto de lei que perdoa as dívidas tributárias das Santas Casas com a União.

Alagoas anunciou redução de IPVA para ônibus e ICMS sobre o combustível para que as empresas mantenham os preços.Em Campo Grande, a Câmara suspendeu o café da manhã reforçado polêmico que era oferecido aos vereadores. E, a exemplo da capital paulista, em Maringá (PR) deverá ser criada uma CPI do transporte coletivo. Apesar das manifestações, não houve mudanças em alguns estados como Bahia, Ceará, Roraima, Rondônia, Piauí e Maranhão.

Para Frederico Almeida, da FGV, a meta do Movimento Passe Livre (MPL) foi atingida porque o grupo desenvolveu uma pauta, constituiu um interlocutor e trabalhou para conseguir o que queria. Agora, as demais reivindicações são genéricas, superficiais e não há uma liderança definida para, por exemplo, definir a meta de quem é contra a corrupção e responder a essas pessoas. "Há dois riscos desse tipo de movimento mais difuso. Um é ele se esvaziar porque na verdade é uma conversa de muita gente falando ao mesmo tem sem um interlocutor definido. O segundo é isso se acirrar como uma incapacidade de diálogo das manifestações com o sistema político. Se de repente cria um descolamento total desse sistema com o povo que está na rua, a gente corre um risco de perder a nossa democracia.”

A violência da Polícia Militar
Os especialistas afirmam que parte da motivação das centenas de milhares de pessoas que decidiram aderir aos movimentos foram as imagens da força excessiva aplicada pela Polícia Militar de São Paulo para dispersar o ato do dia 13 de junho, que deixou dezenas de feridos, inclusive mais de dez jornalistas. Após esse protesto, as balas de borracha foram proibidas nas manifestações populares. Nas manifestações da última quinta, pelo menos oito cidades tiveram confrontos com a polícia que deixaram mais de 200 feridos. Nesta sexta, a postura policial virou alvo de escrutínio em cidades como Porto Alegre e Salvador.

"A polícia agiu massacrando manifestantes pacíficos e atuando de forma indiscriminada", avaliou Claudio Couto, da FGV. "Isso gerou uma reação que resultou na manifestação de segunda-feira que propiciou o engrossamento do movimento –o que, a princípio, foi uma grande vitória."

Professor de sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e diretor do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS), Marco Aurelio Santana afirma que a postura do Estado está sendo questionada, pela forma pouco preparada ou violenta como age.

"Temos de estar todos preocupados. Eles querem tirar pessoas da mobilização social, isso é um problema para todos porque é a liberdade que está em jogo. A manifestação tem sido um cartaz contra o aborto, outro pró-aborto. É preciso entender também que não há democracia sem essas instituições, se não pode haver uma crise de proporções nunca vistas. Esse grupo mistura torcidas organizadas, skinheads, verdadeiras milícias fascistas. Quando você tira um, você tira todo mundo. Nem a polícia pode agir desta forma.”
 

A nova geração de protestos
Ricardo Monteagudo, professor de filosofia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Marília, chamou a atenção para o papel da internet e das redes sociais nos protestos.

"Todo mundo foi pego de surpresa: os organizadores, os líderes políticos, a população em geral. A impressão que dá é que não conseguíamos mensurar certa insatisfação espalhada no ar e que emergiu de uma hora para outra.”

As múltiplas e individuais bandeiras também foram a novidade percebida pelo antropólogo inglês e professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Peter Fry.

“O interessante é que cada um coloca suas próprias queixas naquilo que vê. É uma espécie de insatisfação generalizada, como muitos têm dito. Está tudo em cartazes amadores, escritos à mão”, diz.

“É uma explosão de insatisfação, sem liderança. Nunca vi neste país do futebol as pessoas abrirem mão da Copa a favor da educação e da saúde. As pessoas recusando pão e circo pelas coisas que acham mais importante”, explicou o antropólogo.

Marco Aurelio Santana, também da UFRJ, afirma, porém, que é preciso também repensar os limites de um movimento com muitas bandeiras, contraditórias, algumas que se anulam entre si.

"Minha preocupação hoje é com um foco de que há reação compreensível com o desgaste dos partidos, dos sindicatos, até clichê, quase óbvio. Minha preocupação é que esse sentimento tenha se tornado tão claro para grupos para se espancar filiados a alguns partidos."

A reação dos políticos
O protesto em Brasília reuniu cerca de 60 mil pessoas na quinta-feira e passou pelo Palácio do Planalto atrás da presidente Dilma Rousseff.

A mandatária, porém, deixou o local e sua única atitude pública foi convocar uma reunião com ministros para a manhã desta sexta-feira (21). Após o encontro, ela não deu declarações, mesmo após pedidos da população e dos parlamentares, e marcou um pronunciamento para a noite.

Para Claudio Couto, da FGV, "ela certamente não está ainda conseguindo saber o que dizer".

Além de Dilma, chefes do Executivo de diversas cidades e estados também tentam se adaptar ao novo tom de voz da população. Direta ou indiretamente ligadas aos protestos, alguns projetos de lei e decisões avançaram ou foram adiadas de acordo com as reivindicações das ruas. Uma das decisões do Congresso foi adiar a votação da PEC 37, antes agendada para a semana que vem. A proposta retira poder de investigação criminal do Ministério Público e é conhecida como "PEC da Impunidade". O projeto que flexibilizaria a Lei da Ficha Limpa também saiu da pauta.

Para o juiz Márlon Reis, essas duas decisões são efeito imediato dos movimentos, que também devem servir para que a reforma política seja fortalecida.

“Isso deve implicar em outras mudanças porque, se os líderes institucionais forem sábios, em vez de levar suas bandeiras pra dentro desses movimentos, de tentar encontrar interlocutores para se negociar, eles vão ter que ouvir o que estão dizendo. A postura dos líderes tem que ser de humildade. Essas vozes todas traduzem expressões do que pensa a maioria da sociedade”, afirma.

Segundo ele, esses movimentos são resultado do aumento da exclusão, de uma falência no sistema eleitoral e de representação.

“Os primeiros atos que ocuparam prédios públicos foram voltados ao parlamento, assembleias, Congresso Nacional. É muito simbólico isso. Gostaríamos de estar representados. E essa contínua falta de sermos ouvidos só aumenta a indignação”, afirma.

“Isso veio se acumulando. Teve a escolha do Feliciano, escândalos, CPI do Cachoeira que foi arquivada com um relatório lacônico. É uma tática de varrer lixo para debaixo do tapete. E tudo isso na verdade, é o contrário, isso vai gerando uma energia contida, que uma hora explode.”

Para Frederico Almeida, professor da FGV, os partidos e o sistema político precisam  se reinventar. "Eles têm que abrir canais para receber essas demandas e dar encaminhamento a elas. Cabe ao sistema político identificar essas pautas e promover uma agenda, uma discussão aberta. Agora é o momento que o sistema político tem que reagir. E tá demorando pra reagir.”

A visão do Brasil no mundo
A proporção que os protestos tomaram, e a violência com que eles foram reprimidos nos primeiros dias, também chamaram a atenção da imprensa internacional. Acostumado nos últimos tempos a figurar nos jornais do exterior com notícias da Copa das Confederações e dos preparativos para a Copa do Mundo e a Olimpíada de 2016, o Brasil entrou na lista de países com revoltas populares expressivas e ganhou protestos de apoio em dezenas de cidades estrangeiras.

Antropólogo inglês e professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Peter Fry afirma que os protestos mudaram a visão que o mundo tem sobre as dificuldades que se enfrentam no país.

"Toda a propaganda do Brasil lá fora era no sentido oposto, de que tudo estava melhor e bem por aqui. Acho que deve ter mudado. Devem estar se perguntando como o Brasil vai se justificar."

Segundo ele, o resto do mundo deve ter ficado perplexo com os acontecimentos das últimas semanas. sobretudo porque o futebol também foi mencionado pelos cartazes.

"Acho que a frase que pede padrão Fifa para o país é genial, é genial pedir isso para educação e saúde. Porque tudo o que a Fifa pediu, o país começou a fazer. Mostra que é uma questão de vontade, que se quer pode fazer."

Maria Aparecida de Aquino, professora da USP, a repercussão internacional foi a altura do movimento.

"Ela demonstrou o que é que o movimento tem de importante para a realidade nacional. Eles reagiram muito claramente dizendo ‘é um movimento significativo, as pessoas precisam estar atentas’. A reação internacional mostrou mais que a reação interna esse sentido de urgência que o movimento dá."

SOCIÓLOGO DIZ QUE MOBILIZAÇÃO E ATO DO RIO FORAM HISTÓRICOS

O ato que reuniu cerca de 300 mil pessoas na noite de quinta-feira (20), no Centro do Rio, vai ficar na história da cidade, segundo o sociólogo Ignácio Cano, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Primeiro por agregar participantes de todas as idades, raças, classes, credos e ideologias. Depois por ter conquistado uma de suas principais reivindicações. Mas, segundo o sociólogo, principalmente por demonstrar o peso que as redes sociais têm para o mundo tudo, inclusive o Rio de Janeiro.

“O Rio já foi palco de outras grandes mobilizações, como a promovida pelos royalties do petróleo. Mas esta foi de iniciativa dos jovens e não teve a participação de sindicatos, partidos políticos ou organismos de classe. E mostrou uma força muito grande, mesmo. O movimento, que teve como principal bandeira a redução das tarifas de ônibus, conquistou seu objetivo explícito.” Cano se disse impressionado com o grau de mobilização e organização obtido pelo ato. E destacou a tendência mundial de utilização das redes sociais para expressar a vontade da população.

“Antes era imprescindível a participação de partidos políticos, organismos como sindicatos, para atingir e atrair tantas pessoas. As pessoas sozinhas não tinham uma capacidade assim tão grande, não tinham essa organização. As redes sociais mudaram essa percepção e causaram um impacto nas pessoas. Elas agora percebem que têm como expressar suas opiniões, seus desejos, suas reivindicações. Elas têm o direito de se colocar diante dos fatos”, analisou Cano, dizendo que essa é uma tendência mundial, que começou no Egito e se alastrou por vários cantos do mundo.

Para o sociólogo, as depredações e violência são praticadas por grupos radicais, que querem colocar o movimento sob suspeição.

"São pessoas que escondem o rosto e aproveitam a multidão para cometer atos criminosos, coisas que não teriam coragem de fazer se estivessem sozinhas. São pessoas que querem desacreditar o movimento, que querem desmobilizar a opinião pública, que com atos lamentáveis deixam a população com medo, o que faz com que elas coloquem os objetivos do grupo sob suspeita", lamentou o sociólogo.

PONTOS LEVANTADOS PELOS ANALISTAS

1- Protestos se destacam pela falta de liderança e pela mobilização pela internet

2- Motivação é insatisfação difusa: contra injustiças, corrupção, serviços ruins e falta de representatividade de partidos e instituições

3- Governos demoraram para reagir, em alguns casos por não entender a motivação

4- Imagem do Brasil mudou para o mundo

5- Tolerância à violência policial diminuiu

6- Pauta inicial era mais à esquerda e depois incluiu reinvidicações da direita

7- Não é possível prever efeitos a longo prazo

* Com reportagem de Alba Valéria Mendonça, Ana Carolina Moreno, André Schröder, Giovana Sanchez, Rosanne D'Agostino e Simone Cunha, do G1 em São Paulo

http://g1.globo.com/brasil/noticia/2013/06/atos-sao-maior-mobilizacao-sem-lider-da-historia-brasileira-dizem-analistas.html

 

sábado, 22 de junho de 2013

64 - As Jornadas de Junho (Parte III)


Pessoal, segue uma entrevista do sociólogo e político Fernando Henrique Cardoso sobre os protestos dos últimos dias. A entrevista foi feita por Cassiano Elek Machado, da Folha de São Paulo.

FERNANDO HENRIQUE CARDOSO COMENTA OS PROTESTOS

A trilha sonora na sala do apartamento do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, no final da tarde de quinta-feira, era composta por sirenes de carros e pelo barulho dos helicópteros que passavam a caminho dos protestos na avenida Paulista.

"As passeatas vão ser grandes?", perguntou à Folha. Aos 82 anos, completados na semana passada, o presidente está lançando o livro "Pensadores Que Inventaram o Brasil" (Companhia das Letras), sobre intelectuais que elaboraram grandes teorias sobre o país. Mas ele diz que nenhum teórico do passado poderia entender o que acontece hoje nas ruas.

Mais do que isso, ele acredita que os políticos não têm condições de compreender a "insatisfação genérica" da população e nem de capitalizá-la. "Tenho dúvidas se os partidos vão ter capacidade de captar tudo isso e transformar ao menos sua mensagem", diz Cardoso. Leia a seguir trechos da entrevista. *

O sr. acaba de lançar um livro sobre intelectuais que fizeram grandes interpretações do Brasil. Como estes pensadores podem ajudar a entender o que está acontecendo no país?

Fernando Henrique Cardoso - Eles não entenderiam e nem poderiam entender. Vivíamos num mundo das classes organizadas, ou desorganizadas querendo se organizar. Estas são manifestações que não são expressões de camadas organizadas. A primeira manifestação disso que eu vi foi em Paris em 1968. E isso ainda sem a internet.

Qual a maior mudança?

Muda muito. Aquele era um movimento a favor da autonomia e da liberdade. Na França, em 1968, eles não tinham linguagem para expressar o sentimento que tinham. Ou era foice e martelo, ou bandeira negra, e cantavam a "Internacional Socialista", que diz "De pé, ó famintos da terra". Não tinha faminto nenhum ali. Mas a França tinha sindicatos, partidos, organização. Agora, com a internet, e com a fragmentação maior de classes, é diferente. O comando é quase inexistente, vai se formar na rua. As demandas são muitas, o pretexto pode ser qualquer um. Esta situação me lembra um ensaio meu dos anos 1970 chamado "A teoria do curto-circuito".

Vivemos um curto-circuito?

Sim. O preço de ônibus foi um estopim. Ali está desencapado um fio. Mas aí pega fogo em outros. Não foi a classe dominada. Foram os jovens. São eles que estão gritando aí. Não foram os que não podem pagar. Estão gritando contra a injustiça em geral, vagamente. Juntam tudo: PEC 37, a corrupção, o custo dos estádios, dos transporte.

Qual o papel dos últimos governos nisso?

Nesses últimos anos, com a ascensão do Lula, o que ele propôs como ideologia? Vamos consumir o que é bom. Não é por que eu uso um macacão que não posso ter um automóvel. Criou um estilo de crescimento que é o oposto da China. Lá fazem poupança e investem. Aqui, consome-se sem investir. A rua está dizendo: não basta o consumo, quero mais. Não há razão objetiva. Não tem desemprego, ditadura ou opressão. Não é mundo árabe, Espanha ou Itália.

A Espanha e a Itália estão vivendo uma grande crise de representação política...

Aqui também. As pessoas não identificam nas instituições os canais que as levem ao que eles querem. Nenhum destes movimentos recentes gerou novas institucionalidades. O apelo do movimento aqui não é a ninguém. No mundo árabe querem derrubar o governo. Aqui não.

Vivemos algo próximo do que passou nas periferias de Paris em 2005?

Lá teve segregação racial e religiosa. Aqui não é isso. Quem está na rua não é a periferia. Aqui está todo mundo na rua. Não são sindicatos, não são grupos de trabalhadores organizados. Há uma insatisfação genérica.

Por que a insatisfação?

Porque a vida é pesada nas grandes cidades. Há sofrimento com o transporte, a poluição, a segurança. São problemas que afetam a todas as classes. O pobre leva duas horas no ônibus sofrendo. O rico fica irritado porque fica uma hora no carro. O rico está cercado de guardas. O pobre não tem guarda nenhum, mas os dois estão com medo.

Os governos recentes agravaram muito isso ao estimularem o consumo de carro. E deixaram a bomba na mão dos prefeitos. Mais carro e crédito. Talvez tenha aí também o começo da inflação e do esgotamento do crédito, agindo por baixo disso tudo. Mas o foco é um mal estar inespecífico. Não acho que qualquer partido possa, deva ou consiga capitalizar o movimento.

O sr. acredita que este movimento vai mudar a maneira de fazer política?

Alguma mudança ocasiona, mas não sei se os partidos vão ter capilaridade para sentir tudo isso e transformar ao menos sua mensagem e a ligação com fenômenos como as mídias sociais.

O sr. mencionou em entrevista recente que tinha dúvidas se as interações em mídias sociais poderiam ser concretizadas em ações políticas. Como avalia isso agora?

Não estamos vendo ações propriamente políticas. O grande teórico disso é o sociólogo espanhol Manuel Castells. Diz que a conexão entre redes e vida institucional não se processou, e ele tem dúvidas se vai se processar. Nenhum partido no Brasil tem ligação com isso. Os manifestantes não se sentem representados pelos partidos e nem sei se querem.

Como o sr. viu a imagem do Fernando Haddad junto com Geraldo Alckmin?

Acho compreensível. São símbolos do que está aí. É como a vaia da Dilma.

Lula também foi vaiado na abertura dos Jogos Pan-Americanos...

Mas foi diferente. No caso da Dilma, o que surpreende não é a vaia, mas a duração dela. Ao citar nome de autoridade em estádio é normal que haja vaia. Mas vaiaram muito tempo. Não sei se é contra a Dilma, em si, mas é contra o que está aí.

Há um desencantamento?

Sim. As pessoas melhoraram de vida, mas o governo é tão propagandista de uma maravilha virtual que há desencantamento. Este governo é tão favorável à propaganda que todos os nomes de programas de governo são "marketagem": "Minha Casa, Minha Vida", "Minha Casa Melhor". Criaram uma camada virtual de bem-estar que agora o pessoal questiona. Não sei se há desencantamento, mas há um descolamento. O dia a dia é mais duro do que o que o governo diz. Não há desemprego, mas não houve melhoria na qualidade do emprego, então a renda, mesmo com as melhorias, é pequena, insuficiente para fazer frente ao consumismo propagado. Por isso as pessoas entram no crédito. O governo está dando mais crédito, mais crédito, e endividando os bancos públicos. O que foi correto na crise virou política permanente.

E a crise de crédito vai estourar antes ou depois da eleição de 2014?

Quem sabe. Quem sabe...

Alguns cientistas políticos defendem que quando a oposição é fraca a saída é ir para as ruas. O sr. concorda que há um vazio na oposição?

Não há vazio. Basta assistir a TV Senado. A oposição é violenta o tempo todo. Só que morre ali. Não passa para a sociedade, não tem eco. Houve uma "parlamentarização" da vida política. Além disso, o governo fechou o debate. A Lei da Reforma do Petróleo não foi discutida por ninguém. A Dilma mudou a Lei da Mineração e ninguém sabe disso. E como este Congresso ficou fechado em si mesmo não temos mais regime de coalização. Agora é República Velha: governo e oposição. Não foi a oposição que diminuiu, foi tudo junto. A rua, nisso, pode ser que tenha ganho.

Mas existe uma possibilidade dos próprios partidos se reinventarem ou surgirão novos atores?

Espero que se reinventem. Mas os partidos precisam reestabelecer vínculos com a população. Para começar, têm de falar o que a população fala. Falei sobre drogas. Nenhum partido fala. Este é um tema real. O que são os temas reais? Um é o transporte. Outro é o direito do consumidor. Eu preferiria, talvez porque sou antigo, que existissem partidos capazes de captar e dialogar com estes problemas. Onde é que está o debate no Brasil? Na mídia, e só. E o governo ataca quem? A mídia.

E a mídia social cumpre um papel importante para o debate?

Para o debate, eu não sei. Para a mobilização, não tenho dúvida.

O sr. acompanha o Twitter, o Facebook e outras mídias sociais?

Twitter não. Facebook, um pouco. E alguns blogs. Não tenho tempo para acompanhar.

O sr. brinca em seu livro que desistiu de escrever o livro "Grande Indústria & Favela". Ao que pretende se dedicar agora?

Desde que saí da presidência publiquei seis livros em dez anos. Um deles, escrevi em inglês, o "The Accidental President of Brazil", que agora vou traduzir e lançar aqui no fim do ano. Mas o que ainda tenho de fazer? Ter, não tenho que fazer mais nada. Tenho 82 anos. Sendo generoso comigo mesmo terei mais cinco anos úteis. Depois, cansa. Anotei, quando estava na Presidência, quase todos os dias as coisas que achava. Tenho de deixar isso preparado para uma edição post-mortem. São umas 15 mil páginas. O único projeto que tenho no momento é este, que já retomei. Não penso em fazer outros livros.

Em seu livro recente, "Pensadores Que Inventaram o Brasil", o sr. trata de grandes retratos do Brasil. Por que não se faz mais interpretações gerais do país?

Como disse um rapaz que não conheço pessoalmente, o Marcos Nobre, este tipo de interpretação não cabe mais. Por trás destes livros, havia um projeto de nação. Estavam todos tentando ver como se fazia disso aqui uma nação. Hoje ninguém duvida: isto aqui é uma nação. Já não tem tanto uma obsessão sobre quem somos, por que somos. Nós somos. Estamos nas ruas, mas somos.

Já se sabe que no Brasil o Estado vai ser sempre importante, que o mercado vai ser sempre importante e que a sociedade civil é crescentemente importante. Já não tem dúvidas sobre quem será o propulsor.

Mas em um dos textos incluídos no livro o sr. fala que faz falta este tipo de livro panorâmico sobre o país...

Falei isso numa de 1993, há 20 anos. Até ali, ainda havia a ideia do projeto da nação. Era uma visão de um alguém iluminado que propõe a nação. Isso é antigo. O país já está aí e ninguém vai propor. Ele se faz e vai se fazendo. Não acho que seja cabível mais este tipo de grandes interpretações. A nação se diversificou muito e a universidade hoje estuda muito mais do que no passado muitas coisas.

O sr. está às vésperas de voltar a disputar uma eleição, depois de muito tempo. Vai concorrer na semana que vem a uma cadeira da Academia Brasileira de Letras. Por que o sr. decidiu concorrer?

Há muito tempo eu resistia aos convites. Primeiro porque não sou literato, até que me convenceram que a Academia não era só para escritores. Ainda assim não queria, para não politizar. Agora estou longe do poder há tanto tempo, e todo mundo sabe que não quero mais o poder, que resolvi aceitar concorrer.

O sr. vai participar hoje nas manifestações?

Não (risos). Talvez eu vá até a rua. Mas não dá mais para ir a manifestações. Seria mal interpretado imediatamente.

http://www1.folha.uol.com.br/poder/2013/06/1299535-nenhum-partido-vai-ganhar-com-protestos-afirma-fhc.shtml. Acesso em 22 de junho de 2013

 

sexta-feira, 21 de junho de 2013

63 - As Jornadas de Junho (Parte II)


Pessoal, mais dois textos interessantes sobre as "Jornadas de Junho". O primeiro foi escrito por Mino Carta, no site da Carta Capital, e o segundo é de Cynara Menezes, do blog Socialista Morena. Os dois têm posições ideológicas bem diferentes das de Reinaldo Azevedo, da postagem anterior, que comenta o mesmo tema. Seguem abaixo trechos dos textos originais.

TEXTO I – O PT FICOU PARA TRÁS

O Brasil vive um momento de desencontros e esperanças, nem todas bem-postas.

Difícil mesmo, se não impossível por enquanto, distinguir o que move os manifestantes. Certa apenas a demanda da periferia no país da casa-grande e da senzala. Aludo à maioria dos brasileiros que usam ônibus e desconhecem um certo Estado do Bem-Estar Social, para sofrer as consequências de sistemas de saúde, educação, transporte coletivo de péssima qualidade. Sem contar o saneamento básico.

No mais, há espaço nas ruas para as motivações mais diversas, desde o prazer da festa até a expectativa de quem aspira a alguma mudança sem saber como se daria e com qual profundidade. Desde quem se aproveita da confusão para quebrar vidraças e invadir lojas até os netos e bisnetos dos burguesotes das marchas da família, com Deus e pela liberdade, que invocavam o golpe em 1964. Todos juntos, como torcidas uniformizadas, mas ao acaso, sem liderança. Abrem-se situações expostas a qualquer desfecho e mais uma certeza é a de que ninguém consegue controlar as ruas.

Entende-se. Igual ao abismo que separa ricos e pobres há outro entre a nação e as instituições ditas democráticas. Entre Legislativo, Judiciário e Executivo e esta massa empurrada em boa parte por intenções nebulosas. Avulta, no quadro, a ineficácia do Congresso, entregue aos interesses particulares de deputados e senadores, donde inabilitados a influenciar o destino do protesto popular e, cada qual, o comportamento dos seus eleitores.

Por Mino Carta. Texto completo em http://www.cartacapital.com.br/revista/754/o-pt-ficou-para-tras-2204.html

TEXTO II – PROTESTAR CONTRA TUDO É O MESMO QUE PROTESTAR CONTRA NADA

O que vejo nas ruas é um festival de generalizações. Artistas divulgam nas redes sociais frases de efeito vazias: “Ou o Brasil muda ou o Brasil para”, “Ou para a roubalheira ou paramos o Brasil”. Essas palavras podem soar bonitas, mas não significam nada na prática. São apenas slogans escritos em uma cartolina por pessoas despolitizadas que não parecem genuinamente comprometidas com o País. “O gigante acordou” é trecho de propaganda de uísque. “Vem Para a Rua” é jingle de automóvel. Trechos do hino nacional ou de canções do Legião Urbana são poéticos porém inúteis.

Vejo gente saltando diante das câmeras de TV que nem no carnaval e assisto a entrevistas onde os participantes não conseguem concatenar meia dúzia de ideias para justificar por que estão ali. Resumem-se a dizer que protestam “contra tudo”. Contra tudo o quê, cara-pálida? É mentira que o Brasil esteja totalmente ruim para que seja preciso protestar contra TUDO. É contra a Copa? Ótimo. Pelo menos é UMA razão. Quem protesta contra tudo, a meu ver, não está protestando contra coisa alguma. Afinal, o protesto é à vera ou é só para postar no Facebook?

Uma manifestação se distingue de uma turba pelas reivindicações e pelas causas que possui. Uma manifestação sem rumo e sem causa pode se transformar facilmente em terreno fértil para aproveitadores e arruaceiros.

Por Cynara Menezes. Texto completo em http://socialistamorena.cartacapital.com.br/ protestar-contra-tudo-e-o-mesmo-que-protestar-contra-nada/

 

 

quarta-feira, 19 de junho de 2013

62 - As Jornadas de Junho


AS JORNADAS DE JUNHO: UMA VISÃO CRÍTICA

Pessoal, segue abaixo uma adaptação de textos do jornalista Reinaldo Azevedo sobre os protestos dos últimos dias, que chamei de "jornadas de junho" (não sei se outras pessoas também usaram ou usam esse termo, que faz alusão a um episódio da Revolução de 1848 na França). Os textos foram escritos em 18 e 19 junho no site da Veja. Achei a abordagem de Reinaldo Azevedo interessante porque rompe com a visão predominante, simpática aos protestos. A adaptação dos textos ficou longa, mesmo com a omissão de algumas partes, mas destaquei em vermelho os trechos que considerei mais importantes.

TOMADA DE POSIÇÃO

Já escrevi e reitero: eu não apoio ações ou movimentos que tornam o mundo menos livre do que é, menos democrático do que é, menos pluralista do que é. E gente que ousa acreditar que pode impor a sua vontade à força porque tem a ambição de que o seu anseio traduza a vontade coletiva não é nem jamais será da minha turma, ainda que, episódica ou esporadicamente, goste ou desgoste das mesmas coisas que me agradem ou me desagradem. Não posso e não vou chamar a imposição de exercício da cidadania.

PAUTAS DISTINTAS

Em São Paulo e no Rio, o mote principal da manifestação foi a redução das passagens de ônibus. Em Belo Horizonte e em Brasília, falou-se mais dos gastos oficiais com a Copa do Mundo, a despeito das precariedades existentes na saúde e na educação. São pautas distintas, que acabaram se combinando no que seria um movimento nacional. Assim, uma das tarefas postas ao jornalismo é saber, com precisão, para além das perorações encantadas e encantatórias, quem quer o quê e mobiliza quem. Isso ainda não está claro.


Noto que há um esforço para tentar adivinhar as raízes do que seria uma súbita explosão de consciência. Descontentamentos há tempos represados, insatisfações há muito mitigadas teriam vindo à flor da pele, e estaríamos vivendo os nossos dias de Egito ou Turquia. Para tanto, convenham, seria necessário que se caracterizasse, então, ou a ditadura (que nos aproximaria do povo egípcio) ou o regime autoritário à moda turca, que censura a imprensa, impõe a linha justa religiosa, submete a sociedade, paulatinamente, a uma disciplina teocrática. Mas onde estão esses fatores? Na ausência deles, interroga-se se a inflação renitente, o crescimento medíocre, um Congresso que se orienta pelo troca-troca não foram abrindo rachaduras na muralha petista. O protesto contra a passagem de ônibus teria sido, então, a gota d’água que fez romper o dique.

Como já escrevi aqui, peço desculpas, então, pelo meu pessimismo, pela minha desesperança. Em São Paulo, por exemplo, o protesto é mesmo contra a elevação da passagem de ônibus de R$ 3 para R$ 3,20. Um movimento que atuava em parceria com o petismo, o Passe Livre, que tem como pauta principal a aloprada defesa da “tarifa zero”, uniu-se a militantes de extrema esquerda, e os dois grupos organizaram uma série de protestos violentos, que demandaram a, atenção!, justa e correta intervenção da Polícia Militar. Se houve excessos na quinta-feira — e bala de borracha em jornalista não é necessariamente prova disso; é preciso apurar —, que sejam punidos! Mas o fato é que a PM, em regra, combateu baderneiros, incendiários, depredadores. Se eles não representavam o movimento, que este viesse a público para repudiar o vandalismo. Não só não fizeram isso como tiveram o topete de mentir, sustentando que os arruaceiros apenas respondiam à violência policial.

OUTRA ABORDAGEM

Casaram-se três pragas da contemporaneidade, que resultaram nos conflitos que estamos vendo: uma é de alcance quase universal nas democracias; as outras têm uma marca muito nossa, muito própria de Banânia.


Uma das doenças das democracias é a emergência de minorais radicalizadas ou de grupos sectários que reivindicam o direito de impor à coletividade as suas vontades. Confundem a tolerância que devem ter os regimes democráticos com uma ditadura de minorias. Assim, para esses grupos, nada mais natural do que tomar de assalto as ruas ou as instituições e impor uma decisão na base do berro — e, se necessário, da violência. Desculpem-me! Eu não posso esquecer que, há coisa de dois meses, grupinhos de 20 ou 30 pessoas simplesmente impediam o funcionamento da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara, com amplo apoio da imprensa — o mesmo com que contou o Movimento Passe Livre. Isso que chamo “fascismo de minoria” é chamado por aí, com impressionante desassombro, de “direito” e “liberdade de expressão”. Não é um mal exclusivo do Brasil.

Já a impunidade tem a nossa cara. Está se tornando corriqueira no país a noção de que desrespeitar a lei para fazer justiça social é mais do que um direito; seria mesmo um dever. Assim, o Movimento Passe Livre e seus companheiros de extrema esquerda só estariam querendo o bem dos paulistanos e dos brasileiros. E por que não poderiam, então, parar a cidade? Afinal, não é isso o que faz, dia sim, dia também, o MST, sem que se lhe advenha qualquer consequência? Não estão aí os índios, com o amparo de Gilberto Carvalho, a invadir terras, a incendiar propriedades, a expulsar proprietários? Outro traço que vai nos definindo como país é a noção de que o estado é o grande provedor de tudo. Logo, perguntam, por que o transporte não pode ser gratuito?

Infelizmente, não vejo em nada disso uma abordagem de resistência, que pudesse ser, de algum modo, útil à democracia, ao estado de direito e mesmo à alternância de poder. Ao contrário: vejo reproduzida em alguns desses episódios a pior mística dos primeiros tempos do petismo, e não é por acaso que a imprensa se tomou de encantos pelo Passe Livre. Eu diria até, atenção para isto!, que também os traços de classe social se repetem. A exemplo dos primeiros petistas, lá do começo dos anos 1980, também o Passe Livre tem a cara, o jeito e o pensamento da elite radicalizada, que se considera dotada de uma consciência superior, com a qual vai civilizar e libertar os oprimidos. É próprio desse estrato social, faça ou não política, tenha ou não “consciência”, achar que a lei existe apenas para os outros.

A POSTURA DA IMPRENSA

A imprensa brasileira, nessa sua fase criativo-cidadã-participativa, deu para criar categorias com as quais pretende corrigir a realidade para justificar a sua militância. Assim, inventa coisas como “cura gay”, “bolsa estupro” e… “maioria pacífica”. Já escrevi sobre as três e vou me ater um pouco mais sobre essa terceira. A “maioria pacífica” designa as pessoas que estão ocupando as ruas contra o aumento da tarifa de ônibus e que não promovem quebra-quebra e saques nem recorrem a coquetéis molotov para dizer o que pensam — e sobretudo o quanto… deixam de pensar. Esses seriam os lhanos, os mansos de espírito, aqueles a quem deveríamos ser gratos, exaltando as suas virtudes democráticas, com expressões como “Que coisa emocionante! Que coisa bonita! Que bacana!” Ontem, mais de uma vez, fui tomado pela vergonha alheia. Raramente ouvi tanta bobagem em prazo tão curto.

As TVs foram tomadas, assim, por um tom missionário. É como se a Dona Maroca estivesse cobrindo os eventos das praças Tahrir e Taksim. À “maioria pacífica”, opor-se-ia a minoria dos baderneiros, os que saem ateando fogo em tudo o que veem pela frente, depredando prédios públicos, quebrando aparelhos urbanos, querendo briga e confronto. Esses seriam os maus. E esses maus, insistem os criadores de categorias, não representariam aquela maioria de pessoas bem-intencionadas.

Trata-se, lamento, de uma fraude intelectual, em primeiríssimo lugar, e de uma fraude jornalística, dela decorrente, que remete também a uma questão que diz respeito ao ordenamento jurídico, que está sendo incendiado nas redações, como o lixo anda a ser incendiado nas ruas.

A distinção bate, de saída, numa questão de lógica elementar. Se a minoria baderneira não representa a maioria supostamente pacífica que está nas ruas, esses dois grupos juntos formam uma minoria que, por seu turno, não representa a maioria das cidades. É simples, é óbvio, é elementar. De resto, nem maiorias nem minorias podem desrespeitar as leis sem que lhe advenham consequências.

QUESTÕES FUNDAMENTAIS

Cabe perguntar:
1: Que diabo de “maioria (da minoria!!!) pacífica” é essa que impede o direito de ir e vir, que se atribui a licença de paralisar as cidades, que acredita poder impor a milhões de pessoas a sua pauta, a sua agenda, os seus métodos de luta?

2: Que diabo de “maioria pacífica” é essa que aceita se reunir com o secretário de Segurança Pública para conversar, mas jamais para negociar? Que aceita se reunir com o prefeito para conversar, mas jamais para negociar?

3: Que diabo de “maioria pacífica” é essa que arranca do secretário Fernando Grella, por exemplo, o compromisso de que não haveria tropa de choque, de que não haveria obstrução de ruas pela polícia, de que não haveria bala de borracha etc., mas que não deu nada em troca? Não aceitou nem mesmo entregar um itinerário para facilitar o trabalho de segurança. São pessoas que agem como se estivessem apartadas da ordem democrática. No Roda Viva, um dos seus arrogantezinhos sugeriu que o que quer aconteça de ruim em São Paulo é de responsabilidade de Geraldo Alckmin e Fernando Haddad. Afinal, por que eles não revogam o aumento? Bem, uma jornalista e dois “inteliquituais” afirmaram o mesmo ontem…

4: Que diabo de “maioria pacífica” é essa que atribui toda a violência havida na quinta-feira passada à Polícia Militar, sem nem mesmo admitir a parcela de culpa dos vá lá, radicais?

5: Que diabo de “maioria pacífica” é essa que não concede ao prefeito Haddad nem mesmo um prazo, então, para estudar planilhas de custos e, eventualmente, fazer uma sugestão? Não! É tudo ou nada e é agora! Como lembra a professora Janaina Paschoal, num artigo magistral para este blog, eles não sabem ouvir “não” como resposta. Na verdade, eles não sabem ouvir um “talvez”. Birrentos, querem o doce na hora. E fim de papo. Ou é a redução já ou, anunciam, é gente na rua, cidade parada, caos.

AMEAÇA AUTORITÁRIA

Eu tenho uma novidade para os queimadores de Constituição das redações, tratada como se fosse o lixo das ruas. Os bandidos que saqueiam lojas, que depredam patrimônio público e privado, que saem por aí metendo fogo nas coisas incidem numa penca de artigos do Código Penal. Têm de ser presos. Mas esses que vocês chamam “maioria pacífica” violam cláusulas pétreas da Constituição, violam direitos fundamentais.

Esses que estão sendo tratados como heróis por uma penca de más-fés cruzadas (e por muitos inocentes esperançosos) — trato do assunto em outro post — estão estabelecendo novos marcos da luta política no Brasil. Na verdade, trazem para cá, de forma ainda incipiente, táticas filoterroristas que vêm sendo objeto de especulação teórica de alguns chamados neomarxistas, que acreditam que a luta política tem de se dar em duas frentes: a) na desarticulação dos chamados costumes conservadores — e, nesse caso, os principais alvos têm de ser família e a religião (o cristianismo, claro!); b) na desmoralização contínua, permanente, das instituições do estado.

Noto que, até agora, as ditas lideranças de um movimento supostamente sem líderes não vieram a público para condenar o vandalismo. E não vêm por cálculo. Enquanto essa suposta “maioria pacífica” puder contar com os ditos “radicais” como seus aliados objetivos, sempre poderá posar de moderados, ainda que rasgando a Constituição, sob o aplauso quase unânime da imprensa.

CRISE DA DEMOCRACIA REPRESENTATIVA?

Há um engano central em relação a esse movimento, que ignora a sua origem e a sua história. O Passe Livre, meus caros leitores, não é uma associação que luta por indivíduos mais livres, mais autônomos, mais independentes do estado. Ao contrário: do que dá para perceber de sua concepção de sociedade — e se pode ter uma sem que se tenha clareza disso —, os valentes querem outra coisa. Anseiam por uma democracia tutelada por movimentos sociais organizados, que arrogam para si o direito da representação sem passar pelo ritual das eleições. E, POIS, DEMOCRACIA NÃO É.

À diferença do que se diz por aí, a crise está menos na democracia brasileira, na classe política ou nos Poderes — como se tornou hábito repetir bovinamente, na imprensa inclusive — do que nos instrumentos de análise e de percepção da realidade. Se existe uma crise, ela é de natureza intelectual, isto sim!, de parâmetros. Esse mal-estar, prefiro chamá-lo assim, contamina hoje a academia — o pensamento propriamente — e a imprensa. Perderam-se referenciais e valores do que sejam sociedade livre e representação. Essa conversa de que a redução da tarifa é apenas a face visível de um malaise mais profundo — onde se esconderiam repúdio à corrupção, aos desmandos, à gastança irresponsável do governo — traduz mais uma esperança do que um fato. Lamento, mas entendo rigorosamente o contrário.

A bandeira dos 20 centavos (e notem que ele é ponto de honra dos valentes, que não aceitam negociar) é um ensaio do que entendem ser — e com apoio de muitos pensadores ditos alternativos — a democracia direta, sem a mediação de autoridades eleitas, de instituições, do Parlamento, de partidos.

UMA NOTA ANTES QUE AVANCE

O repúdio a bandeiras de partidos políticos, que a tantos encanta, a mim causa preocupação. Eu não tenho nada contra a existência de partidos. Ao contrário! Posso esculhambar impiedosamente aqueles de que discordo, mas ainda não se conseguiu inventar uma maneira melhor de se articularem as diferenças. Eu abomino quem imagina que pode ocupar a cidade, da forma como lhe der na telha, sem prestar satisfações a ninguém, e ainda se sente no direito de forçar o outro a enrolar a sua bandeira. Esse ódio à política é burro, é obscurantista, é ingênuo.

A questão, é bom que fique claro, não é de conteúdo — porque não é mesmo; seria ridículo imaginar toda essa movimentação por causa de 20 centavos — mas de método. Nesse caso, forma é conteúdo. Não! Não são apenas os vândalos que afrontam a noção mais comezinha de democracia. Também os que são chamados de “pacíficos” entendem que podem violar a Constituição sem dever satisfações a ninguém. Eles se negam até a negociar.

CAIXA DE PANDORA

Usei aqui a imagem da Caixa de Pandora desde o primeiro dia, como vocês sabem. Estão é tirando a tampa do vale-tudo. Como observou de forma luminosa a professora Janaina Paschoal, assistimos ao encontro do “construtivismo com território livre”. Há nisso, é certo, um traço de classe social também. Se eu tivesse de juntar um terceiro elemento, acrescentaria as “aulas de humanas” de “professores progressistas” das… escolas particulares! Essa gente carrega, do berço, a noção de que a lei que vale para os outros não pode atingi-la. Foi cevada na cultura do “tudo é permitido e todo ‘não’ é uma violência”. E foi instada pelos barbudinhos a “mudar o mundo” e a sair de sua zona de conforto e “lutar pelo oprimido”. Aí, meus caros, basta lutar para assaltar o céu.


Esses são traços do microcosmo. Junte-se a isso a cultura que se vai consolidando entre nós de que o estado é o grande provedor de tudo, de que a direitos não correspondem deveres e de que as leis, a exemplo do que se verifica hoje com outros ditos “movimentos sociais”, não pode alcançá-los, e temos o que se vê aí. “Ah, mas eles também são contra a corrupção!” Que bom! Só faltava que falassem a favor, não é? “Ah, mas eles querem menos estádio bonito e mais hospitais…” Lamento! Essa não é uma permuta que faça sentido orçamentário, político ou administrativo. A formulação traduz ignorância. Mas sei que a democracia também existe para os ignorantes. Ok! Mas não pode permitir que os autoritários se imponham.